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SUGESTÃO de LEITURA

Sábado, 11.09.10

"Professores e professauros, Reflexões sobre a aula e práticas pedagógicas diversas", editada pela Editora Vozes - Petrópolis em 2007, é uma obra de Celso Antunes, professor, coordenador e director de instituicões de ensino de todos os níveis por mais de quarenta anos no Brasil, foi, também por várias décadas, autor de livros didácticos.

 

Professores e professauros é ao mesmo tempo uma sátira e uma ideologia, uma crítica ao conservadoreismo e um desafio ao arrojo, uma introspecção das amarras que impedem uma educação com grandeza e um punhado de sugestões sobre como fazer da aula, dos conteúdos e da avaliação uma estratégia inteligente para uma aprendizagem consciente.

 

Nesta obra - escrita por um professor para professores - Celso Antunes não esconde a sua indignação contra muitos que podem semear seguranças e que se desperdiçam no desgaste da rotina. Mas faz da crítica um caminho, propondo novas maneiras de ministrar aula, mostrando estratégias para se construir competências através do currículo e para referendar a certeza de que educação de qualidade não necessita de outros, senão dos recursos humanos, de verdadeiros professores comprometidos com a certeza de que mudar é possivel e imprescindível.

 

É pesquisa extensa e séria, preocupada em relatar por que certas expectativas educacionais se frustram, mas sobretudo em mostrar com detalhes como fazê-las funcionar, como transformar o amanhã na vivência do agora de cada sala de aula.

 

Boa leitura!

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por Mateus Monteiro às 12:06

LETRAMENTO Versus ALFABETIZAÇÃO

Sexta-feira, 03.09.10

"LETRAR É MAIS QUE ALFABETIZAR"

 Entrevista com Magda Becker Soares.

 


Nos dias de hoje, em que as sociedades do mundo inteiro estão cada vez mais centradas na escrita, ser alfabetizado, isto é, saber ler e escrever, tem se revelado condição insuficiente para responder adequadamente às demandas contemporâneas. É preciso ir além da simples aquisição do código escrito, é preciso fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano, apropriar-se da função social dessas duas práticas; é preciso letrar-se. O conceito de letramento, embora ainda não registrado nos dicionários brasileiros, tem seu aflorar devido à insuficiência reconhecida do conceito de alfabetização. E, ainda que não mencionado, já está presente na escola, traduzido em ações pedagógicas de reorganização do ensino e reformulação dos modos de ensinar, como constata a professora Magda Becker Soares, que, há anos, vem se debruçando sobre esse conceito e sua prática.
"A cada momento, multiplicam-se as demandas por práticas de leitura e de escrita, não só na chamada cultura do papel, mas também na nova cultura da tela, com os meios eletrônicos", diz Magda, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "Se uma criança sabe ler, mas não é capaz de ler um livro, uma revista, um jornal, se sabe escrever palavras e frases, mas não é capaz de escrever uma carta, é alfabetizada, mas não é letrada", explica. Para ela, em sociedades grafocêntricas como a nossa, tanto crianças de camadas favorecidas quanto crianças das camadas populares convivem com a escrita e com práticas de leitura e escrita cotidianamente, ou seja, vivem em ambientes de letramento.
"A diferença é que crianças das camadas favorecidas têm um convívio inegavelmente mais freqüente e mais intenso com material escrito e com práticas de leitura e de escrita", diz. "É prioritário propiciar igualmente a todos o acesso ao letramento, um processo de toda a vida".
(ELIANE BARDANACHVILI)

 

  


- O que levou os pesquisadores ao conceito de "letramento", em lugar do de alfabetização?
- A palavra letramento e, portanto, o conceito que ela nomeia entraram recentemente no nosso vocabulário. Basta dizer que, embora apareça com freqüência na bibliografia acadêmica, a palavra não está ainda nos dicionários. Há, mesmo, vários livros que trazem essa palavra no título. Mas ela não foi ainda incluída, por exemplo, no recente Michaelis, Moderno Dicionário da Língua Portuguesa , de 1998, nem na nova edição do Aurélio, o Aurélio Século XXI , publicado em 1999. É preciso reconhecer também que a palavra não foi incorporada pela mídia ou mesmo pelas escolas e professores. É ainda uma palavra quase só dos "pesquisadores", como bem diz a pergunta. O mesmo não acontece com o conceito que a palavra nomeia, porque ele surge como conseqüência do reconhecimento de que o conceito de alfabetização tornou-se insatisfatório.

 

  

- Por quê?
- A preocupação com um analfabetismo funcional [terminologia que a Unesco recomendara nos anos 70, e que o Brasil passou usar somente a partir de 1990, segundo a qual a pessoa apenas sabe ler e escrever, sem saber fazer uso da leitura e da escrita], ou com o iletrismo, que seria o contrário de letramento, é um fenômeno contemporâneo, presente até no Primeiro Mundo.

 

 
- E como isso ocorre?
- É que as sociedades, no mundo inteiro, tornaram-se cada vez mais centradas na escrita. A cada momento, multiplicam-se as demandas por práticas de leitura e de escrita, não só na chamada cultura do papel, mas também na nova cultura da tela, com os meios eletrônicos, que, ao contrário do que se costuma pensar, utilizam-se fundamentalmente da escrita, são novos suportes da escrita. Assim, nas sociedades letradas, ser alfabetizado é insuficiente para vivenciar plenamente a cultura escrita e responder às demandas de hoje.

  


- Qual tem sido a reação a esse fenômeno lá fora?
- Nos Estados Unidos e na Inglaterra, há grande preocupação com o que consideram um baixo nível de literacy da população, e, periodicamente, realizam-se testes nacionais para avaliar as habilidades de leitura e de escrita da população adulta e orientar políticas de superação do problema. Outro exemplo é a França. Os franceses diferenciam illettrisme muito claramente illettrisme de analphabétisme . Este último é considerado problema já vencido, com exceção para imigrantes analfabetos em língua francesa. Já illettrisme surge como problema recente da população francesa. Basta dizer que a palavra illettrisme só entrou no dicionário, na França, nos anos 80. Em Portugal é recente a preocupação com a questão do letramento, que lá ganhou a denominação de literacia, numa tradução mais ao pé da letra do inglês literacy .

  


- O que explica o aparecimento do conceito de letramento entre nós?
- Não se trata propriamente do aparecimento de um novo conceito, mas do reconhecimento de um fenômeno que, por não ter, até então, significado social, permanecia submerso. Desde os tempos do Brasil Colônia, e até muito recentemente, o problema que enfrentávamos em relação à cultura escrita era o analfabetismo, o grande número de pessoas que não sabiam ler e escrever. Assim, a palavra de ordem era alfabetizar. Esse problema foi, nas últimas décadas, relativamente superado, vencido de forma pelo menos razoável. Mas a preocupação com o letramento passou a ter grande presença na escola, ainda que sem o reconhecimento e o uso da palavra, traduzido em ações pedagógicas de reorganização do ensino e reformulação dos modos de ensinar.

  


- Como o conceito de letramento, mesmo sem que se utilize este termo, vem sendo levado à prática?
- No início dos anos 90, começaram a surgir os ciclos básicos de alfabetização, em vários estados; mais recentemente, a própria lei [Lei de Diretrizes e Bases, de 1996] criou os ciclos na organização do ensino. Isso significa que, pelo menos no que se refere ao ciclo inicial, o sistema de ensino e as escolas passam a reconhecer que alfabetização, entendida apenas como a aprendizagem da mecânica do ler e do escrever e que se pretendia que fosse feito em um ano de escolaridade, nas chamadas classes de alfabetização, é insuficiente. Além de aprender a ler e a escrever, a criança deve ser levada ao domínio das práticas sociais de leitura e de escrita. Também os procedimentos didáticos de alfabetização acompanham essa nova concepção: os antigos métodos e as antigas cartilhas, baseados no ensino de uma mecânica transposição da forma sonora da fala à forma gráfica da escrita, são substituídos por procedimentos que levam as crianças a conviver, experimentar e dominar as práticas de leitura e de escrita que circulam na nossa sociedade tão centrada na escrita.

  


- Como se poderia, então, definir letramento?
- Letramento é, de certa forma, o contrário de analfabetismo. Aliás, houve um momento em que as palavras letramento e alfabetismo se alternavam, para nomear o mesmo conceito. Ainda hoje há quem prefira a palavra alfabetismo à palavra letramento - eu mesma acho alfabetismo uma palavra mais vernácula que letramento, que é uma tentativa de tradução da palavra inglesa literacy , mas curvo-me ao poder das tendências lingüísticas, que estão dando preferência a letramento. Analfabetismo é definido como o estado de quem não sabe ler e escrever; seu contrário, alfabetismo ou letramento, é o estado de quem sabe ler e escrever. Ou seja: letramento é o estado em que vive o indivíduo que não só sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive: sabe ler e lê jornais, revistas, livros; sabe ler e interpretar tabelas, quadros, formulários, sua carteira de trabalho, suas contas de água, luz, telefone; sabe escrever e escreve cartas, bilhetes, telegramas sem dificuldade, sabe preencher um formulário, sabe redigir um ofício, um requerimento. São exemplos das práticas mais comuns e cotidianas de leitura e escrita; muitas outras poderiam ser citadas.

  


- Ler e escrever puramente tem algum valor, afinal?
- Alfabetização e letramento se somam. Ou melhor, a alfabetização é um componente do letramento. Considero que é um risco o que se vinha fazendo, ou se vem fazendo, repetindo-se que alfabetização não é apenas ensinar a ler e a escrever, desmerecendo assim, de certa forma, a importância de ensinar a ler e a escrever. É verdade que esta é uma maneira de reconhecer que não basta saber ler e escrever, mas, ao mesmo tempo, pode levar também a perder-se a especificidade do processo de aprender a ler e a escrever, entendido como aquisição do sistema de codificação de fonemas e decodificação de grafemas, apropriação do sistema alfabético e ortográfico da língua, aquisição que é necessária, mais que isso, é imprescindível para a entrada no mundo da escrita. Um processo complexo, difícil de ensinar e difícil de aprender, por isso é importante que seja considerado em sua especificidade. Mas isso não quer dizer que os dois processos, alfabetização e letramento, sejam processos distintos; na verdade, não se distinguem, deve-se alfabetizar letrando .

  


- De que forma?
- Se alfabetizar significa orientar a criança para o domínio da tecnologia da escrita, letrar significa levá-la ao exercício das práticas sociais de leitura e de escrita. Uma criança alfabetizada é uma criança que sabe ler e escrever; uma criança letrada (tomando este adjetivo no campo semântico de letramento e de letrar, e não com o sentido que tem tradicionalmente na língua, este dicionarizado) é uma criança que tem o hábito, as habilidades e até mesmo o prazer de leitura e de escrita de diferentes gêneros de textos, em diferentes suportes ou portadores, em diferentes contextos e circunstâncias. Se a criança não sabe ler, mas pede que leiam histórias para ela, ou finge estar lendo um livro, se não sabe escrever, mas faz rabiscos dizendo que aquilo é uma carta que escreveu para alguém, é letrada, embora analfabeta, porque conhece e tenta exercer, no limite de suas possibilidades, práticas de leitura e de escrita. Alfabetizar letrando significa orientar a criança para que aprenda a ler e a escrever levando-a a conviver com práticas reais de leitura e de escrita: substituindo as tradicionais e artificiais cartilhas por livros, por revistas, por jornais, enfim, pelo material de leitura que circula na escola e na sociedade, e criando situações que tornem necessárias e significativas práticas de produção de textos.

  


- O processo de letramento ocorre, então, mesmo entre crianças bem pequenas...
- Pode-se dizer que o processo começa bem antes de seu processo de alfabetização: a criança começa a "letrar-se" a partir do momento em que nasce numa sociedade letrada. Rodeada de material escrito e de pessoas que usam a leitura e a escrita - e isto tanto vale para a criança das camadas favorecidas como para a das camadas populares, pois a escrita está presente no contexto de ambas -, as crianças, desde cedo, vão conhecendo e reconhecendo práticas de leitura e de escrita. Nesse processo, vão também conhecendo e reconhecendo o sistema de escrita, diferenciando-o de outros sistemas gráficos (de sistemas icônicos, por exemplo), descobrindo o sistema alfabético, o sistema ortográfico. Quando chega à escola, cabe à educação formal orientar metodicamente esses processos, e, nesse sentido, a Educação Infantil é apenas o momento inicial dessa orientação.

  


- O processo de letramento ocorre durante toda a vida escolar?
- A alfabetização, no sentido que atribuí a essa palavra, é que se concentra nos primeiros anos de escolaridade. Concentra-se aí, mas não ocorre só aí: por toda a vida escolar os alunos estão avançando em seu domínio do sistema ortográfico. Aliás, um adulto escolarizado, quando vai ao dicionário, resolver dúvida sobre a escrita de uma palavra está retomando seu processo de alfabetização. Mas esses procedimentos de alfabetização tardia são esporádicos e eventuais, ao contrário do letramento, que é um processo que se estende por todos os anos de escolaridade e, mais que isso, por toda a vida. Eu diria mesmo que o processo de escolarização é, fundamentalmente, um processo de letramento.

  


- Em qualquer disciplina?
- Em todas as áreas de conhecimento, em todas as disciplinas, os alunos aprendem através de práticas de leitura e de escrita: em História, em Geografia, em Ciências, mesmo na Matemática, enfim, em todas as disciplinas, os alunos aprendem lendo e escrevendo. É um engano pensar que o processo de letramento é um problema apenas do professor de Português: letrar é função e obrigação de todos os professores. Mesmo porque em cada área de conhecimento a escrita tem peculiaridades, que os professores que nela atuam é que conhecem e dominam. A quantidade de informações, conceitos, princípios, em cada área de conhecimento, no mundo atual, e a velocidade com que essas informações, conceitos, princípios são ampliados, reformulados, substituídos, faz com que o estudo e a aprendizagem devam ser, fundamentalmente, a identificação de ferramentas de busca de informação e de habilidades de usá-las, através de leitura, interpretação, relacionamento de conhecimentos. E isso é letramento, atribuição, portanto, de todos os professores, de toda a escola.

  


- Mas seria maior a responsabilidade do professor de Português?
- É claro que o professor de Português tem uma responsabilidade bem mais específica com relação ao letramento: enquanto este é um "instrumento" de aprendizagem para os professores das outras áreas, para o professor de Português ele é o próprio objeto de aprendizagem, o conteúdo mesmo de seu ensino.

 

 
- Muitos pais reclamam do fato de, hoje, os grandes textos de literatura, nos livros didáticos, darem lugar a letras de música, rótulos de produtos, bulas de remédio. O que essa ênfase nos textos do dia-a-dia tem de positivo e o que teria de negativo?
- É verdade que o conceito de letramento, bem como a nova concepção de alfabetização que decorre dele e também das teorias do construtivismo que chegaram ao campo da educação e do ensino nos anos 80, trouxeram um certo exagero na utilização de diferentes gêneros e diferentes portadores de texto na sala de aula. É realmente lamentável que os textos literários, até pouco tempo atrás exclusivos nas aulas de Português, tenham perdido espaço. É preciso não esquecer que, exatamente porque a literatura tem, lamentavelmente, no contexto brasileiro, pouca presença na vida cotidiana dos alunos, cabe à escola dar a eles a oportunidade de conhecê-la e dela usufruir. Por outro lado, tem talvez faltado critério na seleção dos gêneros. Por exemplo: parece-me equivocado o trabalho com letras de música, que perdem grande parte de seu significado e valor se desvinculadas da melodia: é difícil apreciar plenamente uma canção de Chico Buarque ou de Caetano Veloso lendo a letra da canção como se fosse um poema, desligada ela da música que é quem lhe dá o verdadeiro sentido e a plena expressividade. Parece óbvio que devem ser priorizados, para as atividades de leitura, os gêneros que mais freqüentemente ou mais necessariamente são lidos, nas práticas sociais, e, para as atividades de produção de texto, os gêneros mais freqüentes ou mais necessários nas práticas sociais de escrita. Estes não coincidem inteiramente com aqueles, já que há gêneros que as pessoas lêem, mas nunca ou raramente escrevem, e há gêneros que as pessoas não só lêem, mas também escrevem. Por exemplo: rótulos de produtos são textos que devemos aprender a ler, mas certamente não precisaremos aprender a escrever. Assim, a adoção de critérios bem fundamentados para selecionar quais gêneros devem ser trabalhados em sala de aula, para a leitura e para a produção de textos, afastará os aspectos negativos que uma invasão excessiva e indiscriminada de gêneros e portadores sem dúvida tem.

  


- A condução do processo de letramento difere, no caso de se lidar com uma criança de classe mais favorecida ou com uma de classe popular?
- Em sociedades grafocêntricas como a nossa, tanto crianças de camadas favorecidas quanto crianças das camadas populares convivem com a escrita e com práticas de leitura e escrita cotidianamente, ou seja, umas e outras vivem em ambientes de letramento. A diferença é que crianças das camadas favorecidas têm um convívio inegavelmente mais freqüente e mais intenso com material escrito e com práticas de leitura e de escrita do que as crianças das camadas populares, e, o que é mais importante, essas crianças, porque inseridas na cultura dominante, convivem com o material escrito e as práticas que a escola valoriza, usa e quer ver utilizados. Dois aspectos precisam, então, ser considerados: de um lado, a escola deve aprender a valorizar também o material escrito e as práticas de leitura e de escrita com que as crianças das camadas populares convivem; de outro lado, a escola deve dar oportunidade a essas crianças de ter acesso ao material escrito e às práticas da cultura dominante. Da mesma forma, a escola que serve às camadas dominantes deve dar oportunidade às crianças dessas camadas de conhecer e usufruir da cultura popular, tendo acesso ao material escrito e às práticas dessa cultura.

  


- Como deve ser a preparação do professor para que ele "letre"? Em que esse preparo difere daquele que o professor recebe hoje?
- Entendendo a função do professor, de qualquer nível de escolaridade, da Educação Infantil à educação pós-graduada, como uma função de letramento dos alunos em sua área específica, o professor precisa, em primeiro lugar, ser ele mesmo letrado na sua área de conhecimento: precisa dominar a produção escrita de sua área, as ferramentas de busca de informação em sua área, e ser um bom leitor e um bom produtor de textos na sua área. Isso se refere mais particularmente à formação que o professor deve ter no conteúdo da área de conhecimento que elegeu. Mas é preciso, para completar uma formação que o torne capaz de letrar seus alunos, que conheça o processo de letramento, que reconheça as características e peculiaridades dos gêneros de escrita próprios de sua área de conhecimento. Penso que os cursos de formação de professores, em qualquer área de conhecimento, deveriam centrar seus esforços na formação de bons leitores e bons produtores de texto naquela área, e na formação de indivíduos capazes de formar bons leitores e bons produtores de textos naquela área.

 
(Jornal do Brasil - 26/11/2000)
 

 

Fonte: http://intervox.nce.ufrj.br/~edpaes/magda.htm

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por Mateus Monteiro às 19:06

Gostaria de acreditar: Descobertas bactérias que degradam crude no Golfo do México

Quinta-feira, 26.08.10

Cientistas norte-americanos descobriram bactérias no fundo do mar das caraíbas que digerem petróleo. A descoberta foi publicada hoje na revista Science. As bactérias agora encontradas podem ser vitais para a limpeza do crude derramado no Golfo do México. Os cientistas descobriram que as bactérias degradam o petróleo bruto mais rápido do que o previsto. Esta espécie é capaz de viver em temperaturas abaixo dos cinco graus e quase sem oxigénio.

 

Fonte: http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Descobertas-bacterias-que-degradam-crude-no-Golfo-do-Mexico.rtp&headline=20&visual=9&article=370101&tm=7 

 

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12 maneiras de transformar seu aluno em fã

Quinta-feira, 19.08.10
Brasílio Neto


Manter um aluno por dois, três anos é relativamente fácil, com as dificuldades de se mudar de escola: o estudante tem de adaptar-se a um currículo totalmente novo, novas regras, etc.

O problema é que essa tática não garante que os parentes daquele aluno se matriculem ali. E tratando-se de ensino superior, vai frustrar o aluno, que não se sentirá preparado para sua profissão, e também não vai indicar a nenhum amigo ou conhecido a essa instituição.

Um dos grandes desafios das escolas hoje é tornar seus alunos fãs, para que eles permaneçam na instituição e tragam novos estudantes. Veja algumas dicas:

1.Seja fonte de novas idéias: todos seus alunos estão preocupados, em graus diferentes, com o futuro, com a maneira pela qual o mundo funciona. Apóie seus alunos nesse sentido, dando-lhes informações sobre o cotidiano que não estão no currículo. A escola também pode realizar palestras e bate-papos com profissionais de sucesso, futurólogos, economistas, etc.

2.Demonstre que você tem o conhecimento: o conhecimento que seus alunos esperam, muitas vezes, não é aquele que o professor passa na sala de aula. Que tal fornecer-lhes instruções básicas de economia, marketing pessoal e outros assuntos necessários para sobreviver lá fora? Desenvolva rápidos livrinhos sobre esses temas e distribua a seus alunos.

3.Transmita a imagem correta: se você quer que sua instituição de ensino seja reconhecida como a melhor da região, então faça com que tudo à sua volta reforce essa imagem. Não é necessário contratar um decorador e cobrir seu escritório com tapetes e quadros caros, mas concentre-se no óbvio. Ataque banheiros com ladrilhos faltando, parede manchadas, plantas secas ou mortas. Assegure-se de que toda sua equipe se apresente bem, com uniformes em ordem. Mire-se no exemplo dos parques da Disney, que sabem que boa parte de sua imagem vem de seus faxineiros, com uniformes imaculadamente limpos e passados. O mesmo vale para suas serventes.

4.Conheça o aluno: não assuma que você entende os anseios e as necessidades de todos os alunos. Cada bairro da cidade, cada classe social produz pessoas com necessidades e visões diferentes. Dentro de cada bairro, cada família possui suas peculiariedades. E dentro de cada família, cada pessoa tem seu modo único de pensar. Muitos colégios erram ao se apoiar em estudos referentes ao "aluno brasileiro médio". Ora, trabalhar com a média vai fazer, no máximo, que você crie uma escola igual às outras. Gaste algum tempo entendendo a comunidade que você quer atingir.

5.Demonstre que você está aprendendo constantemente: esse é um componente chave para garantir o relacionamento escola-aluno. Para que um estudante sinta-se confortável com o passar do tempo, você deve mostrar que está constantemente aprendendo, tornando-se mais atual, útil e competente. Ficar estagnado é fatal para qualquer instituição.

6.Comunique-se claramente: manter um entendimento claro e cristalino com seus alunos é mais importante do que nunca. Cuidado com aquelas circulares cheias de termos técnicos. Algumas são escritas de uma maneira que só confunde os alunos e pais. Esqueça, portanto, as "atividades de campo interativas para observação da variedade da fauna nacional no Bosque e Jardim Botânico Municipal Memorial Etelvina Montes Farberbara.". Escreva "visita ao Jardim Botânico".

7.Seja acessível: mantenha suas portas abertas, esteja sempre pronto para falar com seus alunos. A grande maioria não abusa dessa facilidade de acesso, embora eles se sintam mais seguros ao saber que podem contatá-lo sempre que precisarem. Diminua a burocracia entre a direção e os alunos.

8.Ouça: deixe o aluno falar e você vai acabar descobrindo exatamente o que ele deseja para que suas aulas e sua escola sejam ainda melhores. Somente quando você tem uma imagem bem clara dos motivos e preocupações dos estudantes é que você pode montar uma escola específica para aquela realidade. Abuse de caixas de sugestão e - por que não - reuniões com representantes de alunos.

9.Pense como o estudante: foque no que agradou a você como aluno, quando você sentava do outro lado da sala, bem como as coisas que fizeram você trocar de escola ou faculdade. Assegure-se de praticar a primeira parte, e evitar a segunda. E resista à tendência comum de achar que o que é bom para a sua escola é automaticamente bom para os alunos. Não é, mas o inverso é verdadeiro: o que é bom para seus alunos, no final das contas, vai ser bom para sua instituição. Pense nessas leis sempre que for aprovar algo para sua instituição. Aquela nova ação vai tornar o estudo melhor, mais fácil ou agradável?

10.Nunca decida o que um aluno quer: os estudantes querem conselhos, dicas, sugestões e não conclusões o tempo todo. Então ofereça opções e alternativas. Ensine-os a pensar e analisar. Existe um espaço para verdades absolutas na escola (2 + 2 =4), mas ele não deve ser dominante no relacionamento com os alunos. Trabalhe para criar um cenário que permita ao aluno decidir, apontando aspectos positivos e negativos de algumas situações. Você estará desenvolvendo características que serão muito úteis para eles mais tarde.

11.Torne-se paranóico: Andy Grove, presidente da companhia de peças de computador Intel, sugere que seu sucesso é resultado direto de sua paranóia. É a paranóia que o mantém engajado, atento e fazendo perguntas. Ele está constantemente no limite e suas antenas estão sempre funcionando. Dessa maneira, é difícil alguma coisa passar desapercebida ou pegá-lo de surpresa. O mesmo vale para sua escola. Tenha uma equipe de paranóicos, atentos às mudanças das necessidades dos alunos, aos novos lançamentos de livros didáticos, às novas tendências. Aí, separe o que é paranóia do que é realmente útil. Nada de ficar mudando de livros a cada lançamento: esteja atento, porém seja criterioso.

12.Se você não pode ajudar o aluno, seja honesto: a prova do profissionalismo é dizer não. Não existe maneira de uma escola (ou professor) ser capaz de fazer tudo - e nem o estudante espera isso. Alunos querem soluções boas e confiáveis. Se não for possível, diga. É melhor que prometer e não conseguir cumprir depois.

Fonte: http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=1881

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por Mateus Monteiro às 13:04

Dica de Leitura - Pedagogia da autonomia

Quinta-feira, 19.08.10
Brisa Teixeira


O educador e pensador Paulo Freire, na sua última obra em vida “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” e que agora será relançada em memória aos dez anos de morte do educador, discute e dialoga com os professores e traz uma contribuição passada com muita sensibilidade e paixão em relação ao compromisso como educador. Paulo Freire enfatiza a necessidade de uma reflexão crítica sobre a prática educativa. Ele ressalta o quanto um determinado gesto do educador pode repercutir na vida de um aluno e da necessidade de reflexão sobre o assunto, pois segundo ele ensinar exige respeito aos saberes do educando.

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por Mateus Monteiro às 12:53

Serões ao Luar e as Curiosidades de Criança - O Começo do meu letramento.

Sábado, 14.08.10

As noites da minha infância, as lindas noites que já tive, tiveram o condão de despertar em mim o gosto pelas narrativas orais, e mais tarde, pela leitura e a escrita.

Com saudades, recordo os serões realizados em semicírculos, à soleira da porta, na maioria das vezes, nas noites de luar. A mamãe narrando histórias de encantar que cativavam a atenção da criançada ávida de boas e divertidas histórias, mesmo daquelas que já tinham sido contadas e recontadas.

O auditório dispunha-se em torno da contadeira. O raio do semicírculo apenas tendia a diminuir, por mais que entrassem outros elementos. À medida que se avançava na intriga e a sessão caminhava para o fim, o raio do semicírculo ia-se encolhendo qual elástico pequeno que se retraía, depois de esticado. Nessa hora, realmente, é que queríamos mais e mais histórias, se não pelo encanto, seria pelo medo de nos afastar do local onde nos sentíamos mais seguros.

Não posso deixar de rememorar do fascínio que os livros dos meus irmãos mais velhos exerciam sobre mim. Quantas vezes fui enxotado durante os sagrados estudos do Zeca, da Tanha e da Maria, quando, por curiosidade, me encontrava bem encostado a eles, deleitando-me com a leitura que faziam e com as imagens que fidedignamente ilustravam o que iam dizendo. Essa minha curiosidade levou-me também a partir a afamada pedra-de-conta que mamã usava para ensinar-nos a escrever e a fazer as primeiras operações aritméticas. A pedra-de-conta era uma espécie de quadro em miniatura feita de grafite sobre o qual se escrevia com um pauzinho do mesmo material.

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por Mateus Monteiro às 13:01

Lingua kabverdiana, nôs lingua materna

Sábado, 14.08.10

Na 2000 UNESCO kria dia internasional da lingua materna ke pasa ta ser komemorode na dia 21 de Feverer, kome forma de insintiva estude y prezervá lingua materna de tude pove. Un extimativa ta konsiderá ke serka de 6000 lingua sta ta kore risku de dezaparsé. Y lingua materna é un fator fundamental na identifikasão dun pove, pamode el ten kapasidade de nomea tude kosa, exprimi, avalia, transmiti…

Lingua kabeverdiana - ô kriol, moda k’nô ta xemal - é un dakês axpete más forte de kultura de kabe Verde. El é lingua materna d’nôs kê kabeverdian. É un lingua ke forma dun mistura entre lingua portugeza y linguas afrikana.

Konxtituisão da Rpúblika ta konsidera-l un da kês dose lingua nasional de Kabe Verde. Kel ote é lingua portugeza, ke atê agora é úniku lingua oficial.

Dun lade, portugeje é kel lingua ke ta abri Kabe Verde janela pa munde lá fora (moda tude jente sabê portueje é falode pa más de 200 milhões de pesoa), pa ote lade, kriol é lingua d’unidade nasional y  akel kê falode pa tude kumnidade, tonte li dente d’nôs terra kome la fora.

Nô ka sabê mute drete kandê ke kriol de Kabe Verde nasê, má é sabide ke-l foi língua franka na Sidade Velha (Sidade da Ribeira Grande de Santiago) y na kosta Osidental d’Áfrika, ainda na sék. XVI, na kel tempe de tráfiku d’ exkrave. Más tarde esse língua passa ta ser falode na tude ilha de Kabe Verde y ainda nô ta otxa sinal de sê prezensa na Bissau y Bafatá, Casamança, Arruba e Curaçau.

Konxtituisão da Repúblika de Kabe Verde, na ponte 2 d’art. 9.º ta escrebe ke o Estade ta promovê kes kondisões pa oficializasão de língua materna kabeverdiana, em pê digualdade má língua portugeza. É importante k’ise akontesê pa ke lingua kabeverdiana - ke na nha opinião ka ten neum probablidade de ben dezaparsê – pasa ta ser konxide sientifikamente, o ke so ta trazê vantajens pa tude kin krê domina otes lingua y expesialmente portugeje.

Alguns kozas tem side fete kê pa odja se nô ta djegá la. Governo de kabe Verde, dia 31 de Dezembre de 1998, publika Dekrete-lei n.º 67/98, dondé ke foi aprovode, exprementalmente, ALUPEK (alfabete unifikode pa eskrita de kabeverdiano). Na introdusão deste dokumente nô ta senti loge kel papel sekundário ke kriol ta dezempenha na nose sosiedade, ora kel ta fala ke portugeje é lingua oficial e internasional y ke lingua kabeverdiana, ô kriol é língua nasional e materna; ke pa kel primer ta rezervode funsão de komnikasão formal y pa segunde ta rezervode funsão de komnikasão informal, partikularmente na domin de oralidade. Ka é razoável ke nun pais indipendente lingua mater y nasional okupa un lugar sekundário, pamode un lingua ka é sô un mei de komnikasão, konde el é materna, el tem un karga kultural y afetiva, mô el ta exprimi visão ke jente tem de munde, donde un interpretasão ke ta intranha dente prátika sosial de kada pove.

É bon sabê ke kel mesme dokumente ke aprova ALUPEK num determinade momente ta txa eskribide ke kriol é lingua do dia-a-dia na Kabe Verde y elemente esensial d’identidade nasional, y ke dezenvolvimente armonioze de nose paije ta pasa pa dezenvolvimente y valorizasão de lingua materna. El ta considerá ainda ke esse dezenvolvimente y valorizasão sô ta ser posível kon extandardizasão da eskrita de kriol.

 

A eskrita de kriol dja tem un poke de istória:

- na 1887 António de Paula Brito aprezenta un propoxta bazeode na prinsipe de ekonomia na sê “Apontamento para a Gramática do Crioulo que se fala na Ilha de Santiago de Cabe Verde”;

- em 1903 Cónego António Manuel da Costa Teixeira, profesor de Simnar de San Niklau, publika um “Kartidja” – “Cartilha Normal Portuguesa”- um expésie de gramátika de lingua kabeverdiana;

- em 1932 Pedro Cardoso publika um livre “Folclore Caboverdeano”, pamode el tá intiresa bastante pa preservasão de kultura kabeverdiana e txeu vese, de forma polémika, el defendê lingua materna de sê pove;

- Eugénio Tavares (Nhô Eugene) foi um dakês maior reprezentante de poezia en kriol. El publika na 1932 sê livre “Mornas – Cantigas Crioulas” ke é konsiderode un monumente d’alma e d’sodade kriola. Pa Nhô Eugene estudá gramátika de lingua kabverdiana ka é sô un kestão sientífika pa garantí firmeza de nose lingua, má é tamben um nesesidade istórika.

- Napoleão Fernandes, de 1920 a 1969, estudá lingua cabeverdiana un poke dondé kel txa un obra “Léxico do Dialecto Crioulo do Arquipélago de Cabo Verde”, ke foi publikode más tarde pa sê fidja Ivone Fernandes Ramos, na 1991;

- Baltazar Lopes Y Dulce Almada, tude ês de San Niklau, fazê Estudes y Insais importante sobre lingua kabverdiana. “O Dialecto Crioulo de Cabo Verde”, de Baltazar e “Contribuição para o Dialecto Falado no seu Arquiplélago”, de Dulce Almada;

- na 1979 foi realizode kolóquio de Mindel ondê ke sai un propxta dun alfabete padronizode ke más tar ben da lugar a ALUPEC;

- na 1998 foi puiblicode ALUPEC, un alfabete de baze latina conxtituide pa 23 letra e 4 dígrafos (reprezentode em maiúskula e minúskula). Kada letra ou digrafo só ten un funsão, un úniko son, bazeode na lógika fonológika, konsideronde dose moda de fala na kabe Verde: moda de Barlavente y moda de sotavente.

- bem poke tempe, Governe aprova un diploma ke ta rekonhesê sê extatute de uze na administrasão públika y na edukasão, paralelamente, y na konvivênsia má língua portugeza.

 

A desizão d’ofisializa lingua kabeverdiana

A desizão d’ofisializa lingua kióla é objete de polémika na komnidade kabeverdiana. Ka é fásil normaliza un língua, isto é, adota un varian pa funsiona kome norma y ke ta kaí na agrade de tude falante. Má é nesesário ten koraga. Na kuase tute paije ke oje ten sês lingua materna ofisial é asin ke kontesê. Nôs Governante ke ta realmente interesóde na leba esse projete pa diante devê eskesê de perdê São Visente ô perdê Santiago, en termes partidário – afinal “Santiago é ka sô Paria”, si ma Barlavente é ka só São Vicente – y pasa ta pensa kome linguista, nakel kê más importante pa ganha un lingua konfigurode kome instrumente de eskita viável y efikaje.

Baltazar Lopes ke foi dakês pioneiro na estude de kriol de Kabe Verde y un dos proeminente estudiose kabeverdiane txa sê opinião já dode en matéria dakel ke deve funsional kome norma.

Variante de “Praia kapital”, na nha modextia opinião, stá medjor posisionode pa ser eleite kome norma: kapital ta situode na ilha má grande de kabe Verde y k’un grande populasão; lá é ke stá poder pulítiko y dalá djal ka ta sei más; estranjer, koperantante y porke não diplonata, ten un grande fasilidade pa fala variante da Praia, exemple é kês afrikan de kontinente, merkone de “corpo da Paz”, ets. Enkuante ke kada ilha ta kontinua ta utiliza sê variante na situasão informal.

Se ese desisão ka for tomode nôs “língua” ta kontinua kome kriol más antigo de munde y objete de koriusidade akadémika, pamode ainda el é un kriansa, un menine trivide ke ta anda koxe y el ka ta fala drete. Dente de kaza el ta anda, má de porta pa fora ainda el meste dun kompanher.

 

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por Mateus Monteiro às 12:56

O Mister de Todos os Santos

Sábado, 14.08.10

 

Ainda era cedo quando Zeferino Morgado se levantou, persignou, fechou a porta atrás de si e dirigiu-se à ladeirinha. O dia anterior era o dia das bruxas, o último dia do mês. Que coincidência insólita! Nhô Vitorino Zonza chamava Outubro aquele mês, para não pronunciar o seu nome devido às dificuldades que impunha aos agricultores. Era uma sexta-feira 31, que às avessas dá 13. Mas não foi para exorcizar do dia anterior que fez o Sinal-da-cruz. Superstição não é com ele. Cristão convicto como Zeferino só os que não vacilaram e tiveram o (de)mérito de submeter a cabeça às mãos dos presbíteros.

É o dia de Todos os Santos. A tradição manda comer milho verde em família e, por que não, receber visitas, na simplicidade do lar, para regalar com tudo aquilo que as-águas proporcionar. A alegria era grande. Zeferino não tinha lembranças de um ano em que viu crescer as plantas da sementeira sem enfrentar o stress. “Não! Não sei se deveria usar este termo… Stress é uma palavra que se associa à vida citadina. Para o homem do campo, este é um som bárbaro que não faz parte do seu vocabulário. Peço desculpas, meu caro, mas retiro essa palavra.”

Nhô Frank Silves, conhecedor das lides do campo, diz que quando chove em Junho é natural que venha secura depois, que faz as plantinhas de milho passarem por cebolas ainda antes de começarem os seus cálculos matemáticos para a formação das espigas.

Ladeirinha era a esperança de uma mesa farta em milho no dia de Todos os Santos. A horta da chã já estava passada pela brasa. Algumas espigas foram mergulhadas na cachupa, antes ainda de sazonadas. Umas poucas que ficaram aqui e ali agora estavam secas. O desapontamento veio depois de ter calcorreado, cova a cova, rego a rego, cinco ares de terra que semeou na propriedade do seu velho pai. Ao terminar uma espécie de via-sacra ladeira acima, meia dúzia de espigas mal cobria o fundo de um saco de serapilheira que deveria voltar para casa esticadinha de milho, como perspectivara semanas antes.

Ainda antes de chegar à casa, disse com os seus botões: “Vou rabiscar a horta da chã que precocemente foi segada, muitas vezes mesmo ao anoitecer, quando ainda a brasa entre as três pedras do fogão de lenha improvisado no quintal continuava tão viva e fazia pena a dona de casa vê-la morrer assim estéril em tempo de crise de combustível.”

Lá foi ele. Não foi perda de tempo, pelo contrário, com o seu olhar clínico ensacou mais algumas espigas de milho com o apoio da filha que, como ele, conhecia o lugar. Afinal, ela é que enxertava os botões, de manhãzinha, nas ausências do pai. A mãe também fazia o mesmo. Como as mulheres conhecem melhor que ninguém essas coisas de multiplicação! É de causar inveja aos homens! Não sei se já reparou, mas eu já tirei a prova dos noves, por exemplo, as professoras de matemática, mais que os professores, sabem ensinar aos seus alunos como fazer parir os números e como não deixá-los parir. Elas têm sempre um quê de especial quando explicam a matéria…

Não é que Zeferino Morgado encontrou algumas abóboras! Regressou à casa com o seu saquinho de milho de todos os santos às costas e mais algumas abóboras para enriquecer o prato do dia.

Fajã, Novembro de 2008

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por Mateus Monteiro às 12:40


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