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Amílcar Cabral e a Poesia

Sexta-feira, 04.02.11

Em 1941, Amílcar, tem 17 anos e frequenta o liceu no Mindelo. Não se sente ainda com capacidade para auxiliar o pai na cruzada em favor de Cabo Verde. Mas já conhece todos os problemas que afectam a sua terra, porque o pai, desde cedo, o consciencializa.

Amílcar é, nessa altura, “Larbac”. Assim assina os poemas de amor que escreve: Quando Cupido acerta no alvo, Devaneios, Arte de Minerva, entre outros. Os temas denotam influências clássicas. Os inspiradores são os poetas que ele conhece do liceu: Gonçalves Crespo, Guerra Junqueiro, Casimiro de Abreu, por exemplo. O lirismo de Amílcar (Larbac - anagrama de Cabral) não se evidencia pela originalidade. Revela, porém, a sua sensibilidade amorosa. Esse romantismo passa para a sua prosa de adolescente, os contos, notas e comentários onde se vislumbra já um seguro conhecimento e um desejo de participação no universo insular em que vive. Um pouco mais tarde, em Lisboa, essas preocupações irão agudizar-se.

Todavia, na sua produção literária, destacam-se textos políticos, culturais e poesias. Colaborou em algumas revistas e publicações científicas.

Em 1946, publica na revista Seara Nova o poema "A minha poesia sou eu".

... Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai...
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo...

Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.

                                       Amílcar Cabral

 

 

O período entre 1945 e 1970 foi de produção de uma poesia de combate. É neste período que surgem os primeiros poetas guineenses: Vasco Cabral e António Baticã Ferreira; os cabo-verdianos: Ovídio Martins; Mário Fonseca; Onésimo Silveira; Yolanda Morazzo; Arménio Vieira e outros, Amílcar Cabral, com uma dupla ligação à Guiné e Cabo Verde, faz também parte desta geração de escritores nacionalistas. A literatura deste período caracteriza-se pelo surgimento da poesia de combate que denuncia a dominação, a miséria e o sofrimento, incitando à luta de libertação.

Embora os primeiros poemas de Amílcar Cabral revelem um autor cabo-verdiano, a maior parte da sua obra literária é dominada por um cunho universalista, marcada pela contestação e incitação à luta.

 

POEMA

 

Quem é que não se lembra

Daquele grito que parecia trovão?!

– É que ontem

Soltei meu frito de revolta.

Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra,

Atravessou os mares e os oceanos,

Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,

Não respeitou fronteiras

E fez vibrar meu peito...

 

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de todos os Homens,

Confraternizou todos os Homens

E transformou a Vida...

 

... Ah! O meu grito de revolta que percorreu o Mundo,

Que não transpôs o Mundo,

O Mundo que sou eu!

 

Ah! O meu grito de revolta que feneceu lá longe,

Muito longe,

Na minha garganta!

 

Na garganta de todos os Homens

                                      Amílcar Cabral

 

REGRESSO

 

Mamãe Velha, venha ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão.

É um bater de amigo

Que vibra dentro do meu coração

 

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,

Que há tanto tempo não batia assim...

Ouvi dizer que a Cidade-Velha

– a ilha toda –

Em poucos dias já virou jardim...

 

Dizem que o campo se cobriu de verde

Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança

Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.

– É a tempestade que virou bonança...

 

Venha comigo, Mamãe Velha, venha

Recobre a força e chegue-se ao portão

A chuva amiga já falou mantenha

E bate dentro do meu coração!

 

                                    Amílcar Cabral

 

ROSA NEGRA

 

Rosa,

Chamam-te Rosa, minha preta formosa

E na tua negrura

Teus dentes se mostram sorrindo.

 

Teu corpo baloiça, caminhas dançando,

Minha preta formosa, lasciva e ridente

Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças

Em teu corpo correndo a seiva da vida

Tuas carnes gritando

E teus lábios sorrindo...

 

Mas temo tua sorte na vida que vives,

Na vida que temos...

Amanhã terás filhos, minha preta formosa

E varizes nas pernas e dores no corpo;

Minha preta formosa já não serás Rosa,

Serás uma negra sem vida e sofrente

Ser’as uma negra

E eu temo a tua sorte!

 

Minha preta formosa não temo a tua sorte,

Que a vida que vives não tarda findar...

Minha preta formosa, amanhã terás filhos

Mas também amanhã...

... amanhã terás vida!

                           Amílcar Cabral

 

 


 ILHA

Tu vives - mãe adormecida -
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som das músicas sem música
das águas que nos prendem...

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos -
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura -
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

                                                      Amílcar Cabral

 

 

 

 

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por Mateus Monteiro às 21:45

ESCRITOR DO MÊS de JANERO

Quarta-feira, 02.02.11

O perfil de Amílcar Cabral

 

Adaptado a partir de “Discurso de Aristides Pereira”

Sessão de Abertura do Simpósio Internacional Amílcar Cabral

Cabo Verde, Janeiro de 1983

 

A apreensão da personalidade de Cabral exige o conhecimento dos antecedentes à plenitude da sua formação, marcados por condicionalismos do meio social e do tempo, subjacentes aos traços essenciais que definiram a sua vida. Entre esses traços ganha particular relevo, como pano de fundo de toda uma formação de revolucionário africano, a cabo-verdianidade assumida na sua globalidade nacional.

Nascido em Bafatá de família cabo-verdiana em que a cultura paterna, de componente académica, invulgar para a época, foi de influência dominante, e vivendo em Cabo Verde além dos anos modeladores da infância, os da adolescência e início da juventude, Cabral colheu no seu quotidiano o conjunto das manifestações espirituais e materiais que individualizam o comportamento do povo cabo-verdiano. A vivência, no final da infância, num meio rural e, na adolescência, numa cidade – a do Mindelo – particularmente sujeita aos reflexos dum dos períodos mais significativos da história da humanidade neste século, constitui um rico campo de experiências, para a compreensão do fenómeno da dominação colonial.

O interior de Santiago, onde decorreram os últimos anos da infância de Amílcar Cabral, pela carência das vias de penetração, era, na década de trinta, uma ilha dentro da própria ilha, em parte isolada da influência de valores estranhos, corrente em toda a raia do litoral. Repositório duma tradição própria, o meio ambiente da infância de Cabral moldou a criança de então, que interiorizou os elementos que a rodeavam e se constituíram em formas iniciais da sua identidade cultural.

Bafejado pela sorte ao ter acesso ao ensino, vedado a mais de noventa por cento dos seus concidadãos, a fim de ingressar no ensino secundário transferiu-se Amílcar Cabral para o Mindelo e, aí, para usar as suas próprias palavras, “encontrou-se em contacto mais amplo com o Mundo, onde se operava, dia-a-dia, a evolução da mentalidade humana, concretizando-se as aspirações do homem”. A vivência na cidade marítima, ao tempo, única janela aberta às vozes do mundo, foi de capital importância na formação do jovem estudante, invulgarmente dotado e laureado por classificações raramente atribuídas. Os últimos cinco anos da sua carreira liceal coincidiram com os da Segunda Guerra Mundial tão decisivos para a luta de libertação dos povos oprimidos.

O enraizamento no seu meio faz também emergir o sentimento de protesto contra as condições de opressão, de abandono e de discriminação a que o povo se encontrava votado. A uma estrutura social no domínio rural baseada, em Santiago, na grande propriedade – grande relativamente às dimensões desta ilha – e no rendimento, vítima das extorsões do proprietário, acrescia a degradação das terras pela erosão que se não combatia e o despovoamento dos campos, consequência de estiagens catastróficas que assolavam o arquipélago. O regime colonial não lutava contra tais males, antes deles tirando benefício, através da recuperação, por instituições coloniais de crédito das terras hipotecadas pelos proprietários autóctones.

Nesta conjuntura decorreu o dia-a-dia da infância de Cabral que pôde construir o quadro das fomes por tradição longínqua sempre renovada e na sua juventude foi testemunha directa da grande seca da década de quarenta que viria a dizimar cerca de 20 por cento da população do arquipélago.

Outra experiência da opressão viveu na cidade do Mindelo, então ocupada por alguns milhares de soldados da potência colonial, a pretexto de defesa de uma alegada neutralidade perante os países em guerra. O racismo no meio rural da ilha de Santiago não teria, ao tempo, manifestações exteriores de relevância; revelou-se no ambiente da ocupação militar, por um lado, produto das doutrinas de superioridade racial que na Europa de ideologia nazi-fascista ganhava alargada implantação e, por outro, componente indispensável, por justificadora, do próprio colonialismo.

O sentimento de protesto, nascido da inadequação dos valores culturais próprios às situações de opressão e discriminações atrás apontadas, conduziram à emergência da revolta que se afirmaria como traço distintivo da sua personalidade e factor de formação do revolucionário consequente em que se tornou.

Ainda na juventude, estes valores e este espírito traduziram-se em formas de expressão que vão de incursões no campo da literatura à intensa actividade de divulgação cultural! É uma produção literária, quer em verso, quer no domínio da ficção, a traduzir um engajamento com a realidade circundante, é a preocupação do estudante de agronomia a debruçar-se na área da sua especialidade, sobre o fenómeno da erosão, problema candente na luta pela sobrevivência do povo cabo-verdiano, é a animação cultural através de programas radiofónicos de forte penetração popular que, alertada, a autoridade colonial suspende.

Estudante universitário em Portugal, em estreita ligação com os seus contemporâneos, patriotas de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, Cabral enriquece a sua experiência de revolta plasmada no espaço insular. Aberto às correntes progressistas do pensamento que agitava o mundo e activo participante do movimento da “reafricanização dos espíritos”, alargaria a sua cabo-verdianidade à dimensão da identidade cultural africana. Mau grado o carácter embrionário das estruturas orgânicas de luta contra o colonialismo português, não só tinha surgido no seio da geração a que pertenceu Cabral uma forma de consciência unitária da ruptura com o modelo assimilacionista, mas também a noção do compromisso político e moral de enraizar, em cada território nacional, as ideias de emancipação dos povos oprimidos.

A Cabral caberia historicamente o papel de realizar esse compromisso no seu país natal.

Quem viveu, no despertar dos anos 50, a problemática da opressão na Guiné então dita portuguesa, pode hoje avaliar, com o recuo que o tempo permite, o alcance dos primeiros passos de Amílcar Cabral no terreno social da sua verdadeira prática política. Colónia de exploração comercial e enquadramento, arrastando ainda na sua estrutura económica as sequelas de uma feitoria, a Guiné respondia a todas as características de uma situação bloqueada.

Que perspectivas se poderiam abrir, com efeito, à esmagadora maioria da sociedade colonizada, se, barrando-lhe os horizontes, todos os mecanismos de poder convergiam para a desenfreada acumulação e pilhagem da riqueza fornecida pelos agricultores, a determinação racial e social, o obscurantismo cultural?

A Guiné não dispunha de nenhuma das classes que foram os motores de processos revolucionários noutras regiões do mundo, o proletariado ou mesmo uma classe camponesa privada de terra. Tão pouco se encontravam associadas as premissas de uma determinação subjectiva, apesar das efémeras tentativas de constituição de formações políticas com um cariz nacionalista.

Foi neste contexto que se inseriu a fase preliminar da acção de Amílcar Cabral. Os seus compatriotas não se tardariam muito a se aperceber, através do contacto directo que, enriquecido pela vivência em Portugal, o Engenheiro era portador de um projecto de libertação nacional voltado justamente para a apreensão da realidade objectiva e a criação, no seio de um grupo restrito de patriotas, da consciência da possibilidade de se tornarem os protagonistas do seu destino. Assim o viram embrenhar-se profundamente na compreensão das sociedades rurais onde realizava a sua tarefa de agrónomo, na auscultação das aspirações dos sectores dos assalariados e da pequena burguesia. Com Amílcar Cabral partilharam as hesitações de uns, a indiferença de outros, os erros e insuficiências de apreciação da proeminência a conceder à mobilização da alavanca social. Nesta acção alternada entre o campo e os centros urbanos se viria a situar a trama do empenhamento das forças sociais na luta libertadora.

Ao criarem a Partido Africano da Independência basearam a necessidade de união nos laços de carácter histórico, étnico e cultural, tecidos ao longo dos séculos entre as populações da Guiné e de Cabo Verde, nas contradições geradas pelo sistema colonial na operacionalidade de um instrumento binacional da libertação. Aqui se revelou o primeiro traço fundamental do perfil de Cabral, que iria orientar toda a sua trajectória política como congregados de homens e especialmente de duas comunidades oprimidas…

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Corre por aí um novo dicionário da língua inglesa. Ou seria portuguesa?

Sábado, 18.12.10

Monday: Segunda-feira ou verbo.

- Já não Monday você ir embora?

You: Você ou expressão de curiosidade.

- You seu irmão, como vai?

Dark: Escuro ou expressão comparativa.

- É melhor dark receber.

May go: Talvez vá ou pessoa dócil.

- Ele é tão may go!!!

Feel: Sentir ou barbante.

- Me dá esse feel para amarrar o pacote.

Vase: Vaso ou o momento da jogada.

- Agora é minha vase.

Ice: Gelo ou expressão de desejo.

- Ice ela me desse bola...

French: Francês ou dianteira.

- Sai da minha french, por favor.

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por Mateus Monteiro às 11:33

A produção poética de Eugénio Tavares

Quarta-feira, 24.11.10

A sua obra poética conta com os títulos Fadinhos (1896), Mal de amor: Coroa de Espinhos (1916), ManijasAmor que salva - Santificação do Beijo (1916), Os Cossacos (1918) e Mornas cantigas crioulas (1932), publicada postumamente, por iniciativa de José Osório de Oliveira.

Cultor do verso em crioulo, Eugénio Tavares foi um dos primeiros a investir numa poética em crioulo e a defendê-lo como língua literária. Com as suas mornas, em crioulo, tornou-se um ídolo popular, destacando-se pela sua mestria em recriar a alma crioula.

Nos seus textos verifica-se:

-         a procura de processos da lírica amorosa portuguesa, sobressaindo a frescura e a delicadeza do sentimento romântico;

-         um profundo enraizamento no lirismo popular;

-         a marca intensa dos apelos sociais e políticos daquela época cabo-verdiana;

-         Em língua portuguesa, destacou-se como cultor do lirismo amoroso e do lirismo social;

-         A sua lírica está impregnada de mística e religiosidade.

Integrante da primeira geração de poetas cabo-verdianos, Eugénio Tavares e outros poetas da mesma geração seguem, na literatura, o rumo traçado por José Lopes da Silva que se empenhou na defesa da Civilização Luso-Africana. Lopes estabelece a rota literária e os outros poetas, Pedro Cardoso, Eugénio Tavares e Januário Leite seguem o rumo traçado por ele. Pois, a poética de Lopes é aquela premiada pelas grandes Civilizações Europeias, inclusivamente a da França como sempre universalista e defensora da universalidade do Homem. Tavares segue Lopes, usando o modelo clássico dos seus sonetos. Todavia, acaba por se afastar da rota traçada por aquele, só navegando a vaga clássica. É ele que escreve, quase pela primeira vez, a lírica crioula, que aparece em forma de música no seu livro, Mornas cantigas crioulas (1932). Aqui vai começar a lírica, estabelecendo o grande paradoxo: querer ficar/querer partir donde a nossa literatura se inspira. Abre-se aqui o universo lírico de toda a nossa poética: a psíquica cabo-verdiana, a intelectualização da nossa escrita, a saudade… a nostalgia… o amor… a dor, a traição, as nossas montanhas, o nosso mar, as nossas estrelas tão nossas… as noites românticas, o veleiro encalhado à calma… o escuro de breu dos nossos vales, os naufrágios… a despedida no cais… o regresso dos pescadores de baleia, a sátira dum coração atraiçoado… duma hora maculada… enfim; a verdadeira alma cabo-verdiana fica poeticamente posterizada nas líricas crioulas tavareseanas… para além da estética musical que fica estabelecida nas mornas, o estado da alma crioula, humana e sofredora, revelada na simplicidade dos seus versos.

 

Inserimos aqui uma das mornas que não foi incluída na colecção Mornas cantigas crioulas que sobressai pelo mimo e frescura. A outra composição é um soneto, género que magistralmente cultivou.

 

Djam-crêbo

Já m’cre-bo ma m’ca ta flá-bo

M’ta gardâ dentro de mim,

M’ta ‘ngachâ ês segredo

Co medo bu ca flá-m’ sim.

 

Ma m’crê odjá-bô calado,

Guardá-bo na pensamento,

De que contá-bo ês nha amor,

Pa depôs bu dá-m’ tromento.

 

“Não” é ca sabe de obi,

É pior que maior dor;

Por isso bu ca’l conchê,

Bu ca’l conchê ês nha amor.

 

Triste, dixá-m’ fica triste

Simcerteza amá sim gosto,

Antes triste de incerteza,

Do que triste de disgôsto.

                        

 

                            Eugénio Tavares

Emigração

Como é triste e desolador,

Ver partir, aos magotes, esta gente,

Entregue ao seu destino, indiferente

A tanto sofrimento, tanta dor!

 

Se a sorte ainda a traz à terra amiga,

Macilenta, tristonha, depaup’rada,

Com a doença do sono, já minada,

Ao cemitério um só coval mendiga!

 

Mas porque ides, assim arrebanhada,

A essa maldita terra do desterro?

É a fome que vos leva acorrentada?

 

Aproveitai melhor a mocidade

E ide mais distante, ide à América

A terra do trabalho e liberdade!

                                     Eugénio Tavares

 

 

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por Mateus Monteiro às 21:07

JOSÉ LOPES DA SILVA FALA DE (EU)GÉNIO TAVARES

Sábado, 20.11.10

HOMENAGEM AO JORNALISTA E POETA 

 

Melhores palavras não há que as do Poeta José Lopes para homenagear a personalidade do mês que é Eugénio Tavares. Não por nos faltar a aptidão, mas porque se trata de um vate da literatura cabo-verdiana glorificando seu contemporâneo, outro vate tão grande quanto aquele que o homenageia.

 

(Eu)Génio Tavares

Há nomes que são uns símbolos.

Tal o de Eugénio Tavares.

Lembra-lo, proferi-lo ou escrevê-lo é concretizar a ideia de tudo quanto há e pode haver de mais elevado na alma colectiva da grande família cabo-verdiana; é simbolizar, portanto, a mais fina essência intelectual de uma pátria, o que ela tem de indestrutível.

É pois um nome símbolo; e é também um nome expoente, que eleva a um grau eminente o pensamento cabo-verdiano.

Sintetiza e define a sua terra.

Parece que o ministério das cousas (porque o há em tudo) andou a conspirar no seio arcano do destino para que ao encantador orfãozinho da Badinha lhe pusessem Eugénio.

Há predestinações. Houve aí uma.

O nome define o homem. O homem justifica o nome.

Esse simpático ser bem formado, essa admirabilíssima organização proteiforme de intelectualidade em que predomina o poeta, vinha ser o continuador de Augusto Barreto, do Dantas e de Luís Medina.

Assim, pois, tiveram porventura uma inspiração do Desconhecido os que lhe puseram Eugénio.

Há influxos que o espírito humano, ainda sobre a Terra, não penetra: - porque ninguém sabe da essência do que existe.

Nas mais antigas doutrinas esotéricas foi de um sem número de misteriosas coincidências que nasceram os horóscopos. Eugénio – foi o horóscopo de si mesmo.

Ainda no berço o futuro grande poeta cabo-verdiano, quando só Deus ainda o sabia, quando ainda se não tinha revelado nem podia revelar-se, já assim se chamava.

E que de exemplos e lições na sua vida!...

Estava escrito que o selo da orfandade o devia consagrar quando ainda envolto nas faixas infantis. Não há consagração sem martírio.

A criança-prodígio que Barreto não viu, que Dantas idolatrou e que Luis Medina apresentou no Templo das Musas pressentindo-lhe, como Chateaubriand a Vitor Hugo, o que traduz a segunda parte do seu nome, essa lirial e encantadora criança estava predestinada a encher, a saciar de luz, - a luz fulgurante dum dia eterno -, a nossa querida Terra Cabo-verdiana, elevando-a nas asas resplandecentes da poesia a um grau eminentíssimo do honrosa fama.

Sá não sentiu ungir-lhe a fonte branca de neve um beijo materno de sacrossanto estímulo ao escrever os seu primeiros versos!...

Tinha de ser assim… Do contrário esses seus primeiros carmes não seriam uma pungente elegia chorada no regaço da sua mãe-segunda em memória da primeira.

A Dor santificou pois desde o berço o sublime poeta cabo-verdiano. O augusto nume do Sofrimento tem presidido sempre ao seu destino, mas para o consagrar; mas para o tornar sempre grande, muito grande, cada vez maior; mas para lhe depor na fronte inspirada a imarcescível laurea da imortalidade.

O Grande Poeta vive hoje no seu splendid isolement da risonha Brava, onde nasceu, a Brava que o idolatra e que Ele tanto ama; porque Ele é a Brava e a Brava é Ele; e a Brava porque é Ele, porque o encerra no relicário das suas formosas filhas e das suas flores, incomparáveis de matriz e fragrância, resume em si Cabo Verde.

Hoje como seus compatriotas vimos render ao grande Poeta uma justa e devida homenagem. À sua coroa de louros quero prender uma palma; quero ligar o meu lemnisco triunfal à sua vida toda de luz.

Deixemos depois o grande poeta no seu remanso, no seu sonho, no seu afastamento do mundo que o não poderá sempre compreender. As estrelas não foram feitas para serem observadas de perto pelos homens.

Algum dia a admiração piedosa dos vindouros erguer-lhe-á monumentos, sobreporá a sua estátua ao pedestal que Ele próprio erigiu exaltando a sua terra. Esta glória não nos pertence: está reservada aos nossos descendentes. Viverão em mais luz. Verão mais que nós.

Vós todos que me ledes, vinde comigo junto dele trazer-lhe amor e flores.

Ele é uma autêntica, legítima glória da nossa terra.

Deus vos diz:

Onorate l’altissimo poeta”

 

Janeiro de 1931

José Lopes

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por Mateus Monteiro às 20:52

ESCRITOR DO MÊS

Quarta-feira, 17.11.10

Enquadrado na nossa estratégia de divulgação de escritores, o Projecto "Escritor do Mês" (dos professores de português da Escola Secundária Dr. Baltazar Lopes da Silva) elegeu para Outubro o escritor, poeta e jornalista Eugénio Tavares cujo dia do seu nascimento é também o dia nacional da cultura cabo-vediana.

 

Notas biográficas

                      Eugénio Tavares

 

Eugénio (de Paula) Tavares nasceu no dia 18 de Outubro de 1867 na Ilha Brava do Arquipélago de Cabo Verde, onde faleceu em 1 de Junho de 1930.

Foram seus pais, Francisco de Paula Tavares, natural de Santarém (Portugal) e Eugénia Rodrigues Nozoliny, natural da Ilha do Fogo, de ascendência espanhola.

Do Boletim Oficial n.º 31., de 29 de Julho de 1876 consta que Eugénio “foi examinado nas disciplinas de leitura corrente, escrita (bastardo e cursivo) subtracção, multiplicação e divisão em números inteiros, gramática recitada e doutrina cristã, tendo obtido a classificação de 20 valores”.

Com a idade de 15 anos e “possuindo apenas o a, b, c da instrução primária” ele fez a sua estreia literária no almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, apresentado pelo poeta Patrício Luiz Medina Vasconcelos, que enalteceu o seu talento, embora ressalvando que o mesmo “não medra como deverá, no acanhado ambiente do viver, poético sim, porém demasiado aldeão, da Ilha Brava.

Não há dúvida, porém, que essa estreia já revelava decidida vocação para as Letras e apreciáveis conhecimentos da língua e da metrificação, como reconheceu o apresentador, para quem essa amostra representava “uma eloquente promessa”, apesar das falhas que apontou, embora reconhecendo que “a ideia é bem conduzida”.

Não consta que Eugénio Tavares tenha sido submetido a exames do ensino laico ministrado no então Seminário-Liceu de S. Nicolau, mas sabe-se que, concluída a instrução primária, ele estudou com o Padre António de Sena Barcelos, António Almeida Leite e Rodrigues Aleixo.

Por outro lado, era grande o interesse pela cultura e havia, em quase todas as ilhas, gabinetes de leitura frequentados com interesse pelos sócios respectivos.

Eugénio fez-se autodidacta, em grande parte graças à biblioteca existente na casa onde se criou desde os primeiros dias da sua infância, visto que a mãe morreu de parto, sendo tratado como filho querido tanto pela madrinha, Eugénia Medina Vera-Cruz, como pelo marido desta, Dr. José Martins Vera-Cruz, médico.

O pai ausentou-se para Guiné, onde faleceu 3 ou 4 anos depois.

Quando se aproximava dos vinte anos (1885?) Eugénio conseguiu emprego numa casa comercial do Mindelo (S. Vicente) cujo proprietário exercia funções de agente consular dos Estados Unidos da América, circunstância que proporcionou o seu contacto com americanos de passagem por S. Vicente.

O Porto Grande nessa altura era visitado anualmente por cem mil passageiros em trânsito para o Brasil, Argentina, África do Sul, Ásia e Europa, pelo que a cidade do Mindelo, já se tinha transformado no maior centro populacional de Cabo Verde, com maiores possibilidades de desenvolvimento, sob todos os aspectos - económico, social e cultural.

Na REVISTA DE CABO VERDE (1899) Eugénio viria a recordar o espectáculo a que assistia diariamente, quando as ruas de Mindelo se enchiam de estrangeiros.

Diz ele: “é um espectáculo verdadeiramente original duma população flutuante que os grandes transatlânticos despejam ali, e que, desembarcando de manhã e partindo á noite, fazem daquilo uma extraordinária feira cosmopolita, um acampamento de multidões que passam para a América do Sul e que regressam á Europa e Ásia; ruas atulhadas de gente que fala em todas as línguas, espécimes de todas as raças, exibição de todos os vestuários, de todos os costumes, de todos os tipos, desde o salero das filhas de Espanha ás figuras sentimentais das misses tísicas; desde o rabicho do chinês até o punhal do corso”.

De um iate americano desembarcou certa vez uma jovem por quem Eugénio se apaixonou à primeira vista e a quem o soneto Kate (nome da moça) no qual diz:

 “Foi pálida visão ante a qual um momento

Minh’ alma se ajoelhou, tremente e subjugada;

Foi róseo turbilhão, foi nuvem perfumada

Que agrilhoou sem do meu vário pensamento.

Depois a bruma além, esconde a minha amada

E o triste olhar cravei no plúmbeo Firmamento”.

 Eugénio era “um lindo moço, formoso de rosto e de mais formosa cabeleira, de tez branca, não rosada mas um tanto pálida, fronte ampla e majestosa, olhos negros de luz vivíssima e ao mesmo tempo suave, o nariz perfeito, finos os lábios de fina comissura, alvas as finas mãos, o cabelo retintamente preto, ondeante, farto e sedoso, doce o sorriso e esbelto o porte” (José Lopes).

Mas o pai da moça, aparentemente condescendente, acabou por levantar ferro e zarpar do porto pela calada da noite, enquanto a filha dormia, pois esta pedira ao pai autorização para se casar com Eugénio, que iria com eles para América.

A surpresa de Eugénio não foi por certo muito grande, já que a sua situação de modesto empregado de escritório não lhe permitia encarar a hipótese de convencer Kate a ficar com ele em Cabo Verde, sem o consentimento do pai.

De qualquer maneira, Eugénio passou a pensar na possibilidade de melhorar as suas condições de vida, vindo a conseguir o lugar de recebedor no Tarrafal (Santiago) onde trabalhou até ser nomeado recebedor do concelho da Brava, em 1890.

De regresso à sua terra natal, casou-se com Guiomar Leça Tavares, de quem não teve filhos.

Cerca de dez anos depois, é injustamente acusado de alcance, pelo que teve de fugir para a América do Norte, para não ser preso. Em seu entender, não fugiu mas sim retirou-se. Porque – diz ele – “fugir é cobardia; retirar pode ser, ainda, um ponto de táctica.

Chegado à América, em 11 de Julho de 1900, fixou-se na cidade de New Bedford, onde, viviam milhares de cabo-verdianos, e pensou na possibilidade de editar um jornal, como forma de subsistência, já que não tinha nenhuma experiência que pudesse facilitar-lhe o ingresso em qualquer das profissões acessíveis a imigrantes.

O primeiro número desse jornal, a que deu o título de ALVORADA, insere um artigo intitulado Autonomia, no qual faz algumas considerações sobre a situação política em Cabo Verde e na África, terminando por glosar uma frase célebre de um revolucionário americano – “África para os africanos!”

No final do século XIX, quando já se reflectiam em Cabo Verde os efeitos da propaganda de ideias republicanas em Portugal, Eugénio fez-se republicano e, numa das suas viagens à América, entro para a maçonaria.

Quando da implantação da República, ele encontrava-se de novo na Brava, e fez questão de ir a Praia assistir à chegada do primeiro governador nomeado depois do 5 de Outubro de 1910.

Nessa altura começou a fermentar a ideia de se publicar na Praia um jornal, de que ele viria a ser o principal colaborador, a convite do editor, Abílio Monteiro de Macedo.

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por Mateus Monteiro às 18:37

Conversa de amigos

Segunda-feira, 01.11.10
Quatro amigos encontraram-se em uma festa, após 30 anos sem se verem. Algum drinque aqui, bate papo de lá e de cá e um deles resolve ir ao banheiro. Os que ficaram começaram a falar sobre os filhos.

O primeiro diz:

- Meu filho é meu orgulho. Ele começou a trabalhar como Office Boy em uma empresa. Estudou, formou-se em Administração, foi promovido a gerente da empresa e hoje é o presidente. Ele ficou tão rico, tão rico, que no aniversário de um amigo na semana passada, ele deu-lhe uma Mercedes nova.

O outro (brasileiro) disse:

- Nossa, que beleza! Mas meu filho também é um grande orgulho para mim. Ele começou trabalhando como entregador de passagens. Estudou e formou-se piloto. Foi trabalhar em uma grande empresa aérea. Resolveu entrar como sócio na empresa e hoje ele é o dono. Ele ficou tão rico, que no aniversário de um amigo, também na semana passada, ele deu um avião 737 de presente.

O terceiro:

- Maravilha! parabéns! Mas meu filho também ficou muito rico. Ele estudou, formou-se em engenharia e abriu uma empresa de construção. Deu tão certo que ele ficou milionário. Ele também deu um super presente para um amigo que fez aniversário por esses dias. Ele construiu uma casa de 500 metros quadrados na praia para ele.

O amigo que havia ido até o banheiro chegou e perguntou:

- Qual é o assunto?

- Estamos a falar do orgulho que temos de nossos filhos.

- E o seu? O que ele faz?

- Meu filho é garoto de programa, dorme o dia todo e ganha a vida fazendo a alegria dos boiolas.

E os amigos disseram:

- Nossa que decepção para você!

- Que nada, ele é meu orgulho! É um grande sortudo! Ele fez aniversário semana passada e ganhou uma casa na praia com 500 metros quadrados, um avião 737 e uma Mercedes zerinho de presente de três viados.

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por Mateus Monteiro às 10:51

PREPARAÇÃO PARA O TESTE

Segunda-feira, 25.10.10

Caro aluno

A matéria que temos vindo a trabalhar no 11.º ANO será avaliada dentro de poucos dias. Tendo em conta este facto, acabo de deixar na lista dos links dois testes que foram aplicados aos meus alunos nos anos anteriores. Agradecia que tentasse resolvê-los como forma de preparação. Eventuais dúvidas podedrão ser colocadas na sala ou durante os intervalos.

A avaliação é sempre um momento delicado tanto para o aluno como para o professor, porque sabemos que nem sempre os resultados saidos dos testes correspondem, verdadeiramente, àquilo que, ao longo de um determinado tempo, o aluno aprendeu naquela dinâmica da sala de aula.

Bom Trabalho!

Saudações académicas.

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A MULHER QUE PASSA

Segunda-feira, 11.10.10

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!


Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.


Meu Deus, eu quero a mulher que passa!


Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?


Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?


Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!


Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

 

                                     Vinícius de Moraes

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por Mateus Monteiro às 20:22

CADERNETAS

Sábado, 25.09.10

Acabei de deixar na área dos Links, em Documento, as cadernetas que tenho vindo a utilizar já alguns anos e que agora a minha escola quer implementar. Trata-se de um trabalho realizado por uma passoa curiosa no domínio da informática pelo que não deve esperar encontrar algo muito elabora como se espera de um trabalho de profissionais.

 

Dê uma olhadinha!

Aguardo apreciações.

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por Mateus Monteiro às 10:37


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