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O Mister de Todos os Santos

Sábado, 14.08.10

 

Ainda era cedo quando Zeferino Morgado se levantou, persignou, fechou a porta atrás de si e dirigiu-se à ladeirinha. O dia anterior era o dia das bruxas, o último dia do mês. Que coincidência insólita! Nhô Vitorino Zonza chamava Outubro aquele mês, para não pronunciar o seu nome devido às dificuldades que impunha aos agricultores. Era uma sexta-feira 31, que às avessas dá 13. Mas não foi para exorcizar do dia anterior que fez o Sinal-da-cruz. Superstição não é com ele. Cristão convicto como Zeferino só os que não vacilaram e tiveram o (de)mérito de submeter a cabeça às mãos dos presbíteros.

É o dia de Todos os Santos. A tradição manda comer milho verde em família e, por que não, receber visitas, na simplicidade do lar, para regalar com tudo aquilo que as-águas proporcionar. A alegria era grande. Zeferino não tinha lembranças de um ano em que viu crescer as plantas da sementeira sem enfrentar o stress. “Não! Não sei se deveria usar este termo… Stress é uma palavra que se associa à vida citadina. Para o homem do campo, este é um som bárbaro que não faz parte do seu vocabulário. Peço desculpas, meu caro, mas retiro essa palavra.”

Nhô Frank Silves, conhecedor das lides do campo, diz que quando chove em Junho é natural que venha secura depois, que faz as plantinhas de milho passarem por cebolas ainda antes de começarem os seus cálculos matemáticos para a formação das espigas.

Ladeirinha era a esperança de uma mesa farta em milho no dia de Todos os Santos. A horta da chã já estava passada pela brasa. Algumas espigas foram mergulhadas na cachupa, antes ainda de sazonadas. Umas poucas que ficaram aqui e ali agora estavam secas. O desapontamento veio depois de ter calcorreado, cova a cova, rego a rego, cinco ares de terra que semeou na propriedade do seu velho pai. Ao terminar uma espécie de via-sacra ladeira acima, meia dúzia de espigas mal cobria o fundo de um saco de serapilheira que deveria voltar para casa esticadinha de milho, como perspectivara semanas antes.

Ainda antes de chegar à casa, disse com os seus botões: “Vou rabiscar a horta da chã que precocemente foi segada, muitas vezes mesmo ao anoitecer, quando ainda a brasa entre as três pedras do fogão de lenha improvisado no quintal continuava tão viva e fazia pena a dona de casa vê-la morrer assim estéril em tempo de crise de combustível.”

Lá foi ele. Não foi perda de tempo, pelo contrário, com o seu olhar clínico ensacou mais algumas espigas de milho com o apoio da filha que, como ele, conhecia o lugar. Afinal, ela é que enxertava os botões, de manhãzinha, nas ausências do pai. A mãe também fazia o mesmo. Como as mulheres conhecem melhor que ninguém essas coisas de multiplicação! É de causar inveja aos homens! Não sei se já reparou, mas eu já tirei a prova dos noves, por exemplo, as professoras de matemática, mais que os professores, sabem ensinar aos seus alunos como fazer parir os números e como não deixá-los parir. Elas têm sempre um quê de especial quando explicam a matéria…

Não é que Zeferino Morgado encontrou algumas abóboras! Regressou à casa com o seu saquinho de milho de todos os santos às costas e mais algumas abóboras para enriquecer o prato do dia.

Fajã, Novembro de 2008

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por Mateus Monteiro às 12:40


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