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ESCRITOR DO MÊS de JANERO

Quarta-feira, 02.02.11

O perfil de Amílcar Cabral

 

Adaptado a partir de “Discurso de Aristides Pereira”

Sessão de Abertura do Simpósio Internacional Amílcar Cabral

Cabo Verde, Janeiro de 1983

 

A apreensão da personalidade de Cabral exige o conhecimento dos antecedentes à plenitude da sua formação, marcados por condicionalismos do meio social e do tempo, subjacentes aos traços essenciais que definiram a sua vida. Entre esses traços ganha particular relevo, como pano de fundo de toda uma formação de revolucionário africano, a cabo-verdianidade assumida na sua globalidade nacional.

Nascido em Bafatá de família cabo-verdiana em que a cultura paterna, de componente académica, invulgar para a época, foi de influência dominante, e vivendo em Cabo Verde além dos anos modeladores da infância, os da adolescência e início da juventude, Cabral colheu no seu quotidiano o conjunto das manifestações espirituais e materiais que individualizam o comportamento do povo cabo-verdiano. A vivência, no final da infância, num meio rural e, na adolescência, numa cidade – a do Mindelo – particularmente sujeita aos reflexos dum dos períodos mais significativos da história da humanidade neste século, constitui um rico campo de experiências, para a compreensão do fenómeno da dominação colonial.

O interior de Santiago, onde decorreram os últimos anos da infância de Amílcar Cabral, pela carência das vias de penetração, era, na década de trinta, uma ilha dentro da própria ilha, em parte isolada da influência de valores estranhos, corrente em toda a raia do litoral. Repositório duma tradição própria, o meio ambiente da infância de Cabral moldou a criança de então, que interiorizou os elementos que a rodeavam e se constituíram em formas iniciais da sua identidade cultural.

Bafejado pela sorte ao ter acesso ao ensino, vedado a mais de noventa por cento dos seus concidadãos, a fim de ingressar no ensino secundário transferiu-se Amílcar Cabral para o Mindelo e, aí, para usar as suas próprias palavras, “encontrou-se em contacto mais amplo com o Mundo, onde se operava, dia-a-dia, a evolução da mentalidade humana, concretizando-se as aspirações do homem”. A vivência na cidade marítima, ao tempo, única janela aberta às vozes do mundo, foi de capital importância na formação do jovem estudante, invulgarmente dotado e laureado por classificações raramente atribuídas. Os últimos cinco anos da sua carreira liceal coincidiram com os da Segunda Guerra Mundial tão decisivos para a luta de libertação dos povos oprimidos.

O enraizamento no seu meio faz também emergir o sentimento de protesto contra as condições de opressão, de abandono e de discriminação a que o povo se encontrava votado. A uma estrutura social no domínio rural baseada, em Santiago, na grande propriedade – grande relativamente às dimensões desta ilha – e no rendimento, vítima das extorsões do proprietário, acrescia a degradação das terras pela erosão que se não combatia e o despovoamento dos campos, consequência de estiagens catastróficas que assolavam o arquipélago. O regime colonial não lutava contra tais males, antes deles tirando benefício, através da recuperação, por instituições coloniais de crédito das terras hipotecadas pelos proprietários autóctones.

Nesta conjuntura decorreu o dia-a-dia da infância de Cabral que pôde construir o quadro das fomes por tradição longínqua sempre renovada e na sua juventude foi testemunha directa da grande seca da década de quarenta que viria a dizimar cerca de 20 por cento da população do arquipélago.

Outra experiência da opressão viveu na cidade do Mindelo, então ocupada por alguns milhares de soldados da potência colonial, a pretexto de defesa de uma alegada neutralidade perante os países em guerra. O racismo no meio rural da ilha de Santiago não teria, ao tempo, manifestações exteriores de relevância; revelou-se no ambiente da ocupação militar, por um lado, produto das doutrinas de superioridade racial que na Europa de ideologia nazi-fascista ganhava alargada implantação e, por outro, componente indispensável, por justificadora, do próprio colonialismo.

O sentimento de protesto, nascido da inadequação dos valores culturais próprios às situações de opressão e discriminações atrás apontadas, conduziram à emergência da revolta que se afirmaria como traço distintivo da sua personalidade e factor de formação do revolucionário consequente em que se tornou.

Ainda na juventude, estes valores e este espírito traduziram-se em formas de expressão que vão de incursões no campo da literatura à intensa actividade de divulgação cultural! É uma produção literária, quer em verso, quer no domínio da ficção, a traduzir um engajamento com a realidade circundante, é a preocupação do estudante de agronomia a debruçar-se na área da sua especialidade, sobre o fenómeno da erosão, problema candente na luta pela sobrevivência do povo cabo-verdiano, é a animação cultural através de programas radiofónicos de forte penetração popular que, alertada, a autoridade colonial suspende.

Estudante universitário em Portugal, em estreita ligação com os seus contemporâneos, patriotas de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, Cabral enriquece a sua experiência de revolta plasmada no espaço insular. Aberto às correntes progressistas do pensamento que agitava o mundo e activo participante do movimento da “reafricanização dos espíritos”, alargaria a sua cabo-verdianidade à dimensão da identidade cultural africana. Mau grado o carácter embrionário das estruturas orgânicas de luta contra o colonialismo português, não só tinha surgido no seio da geração a que pertenceu Cabral uma forma de consciência unitária da ruptura com o modelo assimilacionista, mas também a noção do compromisso político e moral de enraizar, em cada território nacional, as ideias de emancipação dos povos oprimidos.

A Cabral caberia historicamente o papel de realizar esse compromisso no seu país natal.

Quem viveu, no despertar dos anos 50, a problemática da opressão na Guiné então dita portuguesa, pode hoje avaliar, com o recuo que o tempo permite, o alcance dos primeiros passos de Amílcar Cabral no terreno social da sua verdadeira prática política. Colónia de exploração comercial e enquadramento, arrastando ainda na sua estrutura económica as sequelas de uma feitoria, a Guiné respondia a todas as características de uma situação bloqueada.

Que perspectivas se poderiam abrir, com efeito, à esmagadora maioria da sociedade colonizada, se, barrando-lhe os horizontes, todos os mecanismos de poder convergiam para a desenfreada acumulação e pilhagem da riqueza fornecida pelos agricultores, a determinação racial e social, o obscurantismo cultural?

A Guiné não dispunha de nenhuma das classes que foram os motores de processos revolucionários noutras regiões do mundo, o proletariado ou mesmo uma classe camponesa privada de terra. Tão pouco se encontravam associadas as premissas de uma determinação subjectiva, apesar das efémeras tentativas de constituição de formações políticas com um cariz nacionalista.

Foi neste contexto que se inseriu a fase preliminar da acção de Amílcar Cabral. Os seus compatriotas não se tardariam muito a se aperceber, através do contacto directo que, enriquecido pela vivência em Portugal, o Engenheiro era portador de um projecto de libertação nacional voltado justamente para a apreensão da realidade objectiva e a criação, no seio de um grupo restrito de patriotas, da consciência da possibilidade de se tornarem os protagonistas do seu destino. Assim o viram embrenhar-se profundamente na compreensão das sociedades rurais onde realizava a sua tarefa de agrónomo, na auscultação das aspirações dos sectores dos assalariados e da pequena burguesia. Com Amílcar Cabral partilharam as hesitações de uns, a indiferença de outros, os erros e insuficiências de apreciação da proeminência a conceder à mobilização da alavanca social. Nesta acção alternada entre o campo e os centros urbanos se viria a situar a trama do empenhamento das forças sociais na luta libertadora.

Ao criarem a Partido Africano da Independência basearam a necessidade de união nos laços de carácter histórico, étnico e cultural, tecidos ao longo dos séculos entre as populações da Guiné e de Cabo Verde, nas contradições geradas pelo sistema colonial na operacionalidade de um instrumento binacional da libertação. Aqui se revelou o primeiro traço fundamental do perfil de Cabral, que iria orientar toda a sua trajectória política como congregados de homens e especialmente de duas comunidades oprimidas…

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por Mateus Monteiro às 19:31

1 comentário

De MFonseca a 04.02.2011 às 11:32

Gostei da sua historia, mas nao e tudo que foi escrito e verdade sobre historia de Cabral.

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