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PÃO & FONEMA do ESCRITOR CABO-VERDIANO CURSINO FORTES

Quinta-feira, 24.02.11

PÃO & FONEMA

 

É

 o primeiro livro de Corsino Fortes publicado em 1973 e que mais tarde foi integrado na trilogia "A Cabeça Calva de Deus", editada por Publicações D. Quixote, 2001, que incorpora também "Árvore & Tambor" e "Pedras de Sol & Substância", procura, emblemática e teluricamente, expressar esta luta titânica de afirmação do homem cabo-verdiano, entre a secura do céu e a cabeça calva da ilha.

A geração da Claridade lançou os alicerces da nova poesia que depois é continuada pelos escritores pelos escritores que colaboram em outras duas publicações, a Certeza (1944) e o Suplemento Cultural (1958). A geração da Claridade influenciou, e continua a influenciar, grande parte da produção poética e ficcionista de Cabo Verde.

O salto qualitativo e a ruptura com a influência dos claridosos devem-se a dois escritores que chegaram a participar na revista Claridade. Estou a referir-me a João Varela (aliás João Vário, ou Timótio Tio Tiofe) que publicou em 1975, O primeiro livro de Notcha, e Corsino Fortes, autor de dois importantes trabalhos poéticos, Pão & Fonema (1975) e Árvore & Tambor (1985). É sobretudo Corsino Fortes que provoca o maior desvio de conteúdo temático e formal. O livro Pão & Fonema deixa perceber a intenção do autor em reescrever a história do povo em termos de epopeia. O livro abre com uma Proposição que constitui, por si só, uma demarcação da poesia de tipo estático dos claridosos. Repare-se na primeira estrofe:

Ano a ano
           crânio a crânio
Rostos contornam

           o olho da ilha
com poços de pedra
           abertos
           no olho da cabra

Esta cadência ritmada do esforço humano marca o compasso da epopeia que se pretende escrever, intenção que o autor condensa na epígrafe da autoria de Pablo Neruda: Aqui nadie se queda inmóvel./Mi pueblo es movimiento ./mi pátria es um camino. O poema desenrola-se depois em dois cantos que justificam o título.

Este livro de Corsino Fortes é, quanto a mim, o desenvolvimento e expansão de uma metáfora que se inicia com o título. O povo tomou conta da sua terra (o Pão) e do seu destino (a fala que dá nome às coisas, que indica posse). A utilização do crioulo em muitos poemas é intencional, uma vez que fala, anterior à escrita, é o grande sinal da liberdade que se tornou património, tal como a terra. Daqui o subtítulo do canto primeiro - Tchon de Pove, Tchon de Pedra; Daqui também os subtítulos de outros dois cantos - Mar & Matrimónio e Pão & Matrimónio.

É evidente que toda problemática de raiz cabo-verdiana está presente na obra de Corsino Fortes. A nova poesia é uma expressão artística cuja formulação sugere, reflecte e intervém na dinâmica do real. Este autor, para além de criar uma nova dinâmica de ralações entre o sujeito e o objecto poético, coloca toda a problemática cabo-verdiana num contexto muito mais vasto que é o da África. Cabo Verde, com sua especificidade, que é o isolamento de arquipélago, participa na viagem de construção da África de rosto e corpo renovado:

Dos seios da ilha ao corpo da África
O mar é ventre E umbigo maduro
E o arquipélago cresce

 

Caminhando pelos passos do Prof. Dr. Mesquitela Lima, no seu estudo analítico sobre "Pão & Fonema", ele interroga-se sobre a razão do título e esclarece:

"(…) Porquê Pão? Compreende-se perfeitamente a razão do emprego de tal termo. Um dos grandes dramas de Cabo Verde são as secas, crises cíclicas que emolduram a forma de pensamento do homem cabo-verdiano e que o predispõem, pode dizer-se, a um certo fatalismo em relação ao pão do dia-a-dia. Devido a todo um conjunto de factores de ordem geográfica, as chuvas são erráticas e, devido a outro conjunto de ordem cultural, o homem cabo-verdiano está de tal maneira vinculado à terra - é um agricultor "teimoso" - que mesmo sabendo que não vai chover lança o milho nos campos, na esperança de uma magra colheita. Determinismo ou fatalismo dramático que gira em círculo e que se traduz no binómio milho-chuva que o poeta simboliza ou funde num só termo - pão - e que, ao fim e ao cabo, corresponde à relação binária acima citada: da cópula - milho-chuva - há pão, da não cópula, há fome. Por consequência, no poema, o termo pão conota não só o pão para a boca, a comida do dia-a-dia, a necessidade primária, mas também a fome a que os Cabo-verdianos se vão habituando, qual fantasma ciclópico ou espada de Dâmocles balançando permanentemente sobre a cabeça do povo, no chão de pedra, mas chão do povo.

Quanto ao emprego do termo fonema, a escolha não podia ser mais acertada. Fonema, em linguística, é o elemento irredutível de qualquer sistema fonético. Linguisticamente falando, fonema não tem muita importância, pois frase é que é fundamental para a denominada compreensão, para a significação. Então porquê fonema e não frase? Fonema, como elemento linguístico, é independente, não implica subordinações ou hierarquias; frase é sempre sujeita a um discurso, com uma estrutura interna que desenvolve normalmente reacções e movimentos. Em Fortes, porém, fonema ultrapassa o elemento sonoro da linguagem, considerado do ponto de vista de uma fisiologia ou de uma acústica. No poema, fonema vem do fundo das goelas, das entranhas da alma, como um grito, como um lamento uníssono de um povo que faz parte integrante há quatrocentos anos e que procura a liberdade e PÃO a que tem direito. Fonema é, no poema, sinal de afirmação de si próprio, como povo, como cultura, como dignidade, como projecção no mundo. Para o povo, fonema é o seu grito de independência, de liberdade, liberdade essencial que vem do não consciente, do não pensado, do não racionalizado, traduzindo ao mesmo tempo um estado de espírito e uma natureza peculiar".

Também no seu estudo interpretativo sobre "Pão & Fonema", a Dr.ª Fátima Fernandes, leitora de Português do Instituto Camões em Cabo Verde, acresce o seguinte:

"(…) E, uma vez que estamos no campo dos símbolos, permitam-nos apresentar um dado curioso - a obra é composta de três partes 1…) Da simbologia dos números, estes levam-nos a atribuir um significado especial à sua presença na obra e a uma compreensão global da mesma. Efectivamente, na palavra pão encontramos três fonemas: 'p', 'ã' e 'o'. Três é universalmente tomado como um número fundamental. O dicionário dos símbolos regista que este número sagrado 'exprime uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, no cosmos ou no homem. Ele sintetiza a tri-unidade do ser vivo ou resulta da conjugação de 1 e 2, produto, nesse caso, da União do Céu e da Terra' (…) Três é a expressão da totalidade, da conclusão: nada lhe pode ser acrescentado. É o acabamento da manifestação: o homem, filho do Céu e da Terra, completa a Grande Tríade, e nada mais ajustado ao contexto em que nos apresentamos (…)"

"(…) "Pão & Fonema" é ainda o grito de liberdade de ser substância, palavra e voz. Saciada a fome, o povo canta ao ritmo dos tambores, que na sua plenitude remetem para a tradição africana, e para o momento em que se impôs uma nova linguagem de identidade com África, ao ritmo de festa e de alegria de que só a solidariedade entre os povos é testemunha. É uma das mais antigas formas de comunicação para valorizar e perpetuar a cultura africana e universal. A Árvore, que representa a vida e a natureza, tão adversa à sorte do povo cabo-verdiano, encontra no Tambor a sua metade, também vida, dinamismo, sustentáculo de toda uma cosmogonia (…)"

Para terminar, transcrevemos um poema do livro, que procura traduzir ou surpreender o homem, já liberto e responsável, consciente que no universo globalizante do pão, ele não é só gregário, como também actor e autor do seu próprio destino:

Não há fonte que não beba da fronte deste homem.

                       I

Nas rugas deste homem

Circulam

estradas de todos os pés que emigram

Nas rugas deste homem

 

Quebram-se

vivas! as ondas de todas pátrias

Anulam-se

de perfil! as chinas de todas muralhas

 

Na mão bíblica

No humor bíblico deste homem

crepitam de joelhos

 

Desertos & catedrais

Onde

deus & demónio

jogam

                   noite e dia

             a sua última cartada

E do pó da ilha à mó de pedra

Não há relâmpago

Que não morda a nudez deste homem

Nudez de liberta!

Que a dor germina

E o espaço exulta

E pela ogiva

ogiva do olho

Não há poente

Que não seja

Uma oração de sapiência

 

Sobre a face deste homem

o povo ergueu a praça pública

E os tambores transportam

o rosto deste homem

Até à boca das ribeiras

E ao redor

os vulcões respeitam

o silêncio deste homem

 

                       I I

Não há chuva

Que não lamba o osso de tal homem

À porta da ilha

Diz o sal de toda a saliva

O sol ondula oceanos no sangue deste homem

 

Oh cereal altivo! vertical & probo

Ainda ontem

antes do meio-dia

O vento punha velas na viola deste homem

Hoje!

A viola

De tal dor é sumarenta

E projecta

sobre as almas

a seiva

De uma árvore imensa

Oh oceanos! que ladram à boca das tabernas

Se o sangue deste homem

é tambor no coração da ilha

O coração deste homem

é corda no violão do mundo

E os joelhos

rodas que vão! hélices que sobem

com ilhas no interior

 

                       I I I

Sombras sobre a colina Rosto sobre o povoado

Quando

pastor & gado jogam à cabra-cega

E chifres de sol

       projectam

cidadelas no ocidente

O poente galopa a maré-alta

       E ergue

"À taça da noite

Sobre as têmporas deste homem"

 

Oh noite verde! oh noite violada

Que a noite não apague

A memória das cicatrizes

E cicatrizes de ontem

       Sejam

Sementes de hoje

Para sementeira E floresta de amanhã

 

Como Noé

As espécies conhecem

A sílaba E a substância deste homem

Não há milho

Que não ame o umbigo deste homem

Não há raiz

Que não rasgue a carne deste homem

 

E na fome pública deste homem

Cresce

a ave no voo E a gema na casca

Cresce

o cabo d'enxada E a cintura da terra

Cresce

a porta do sol E o alfabeto da pedra verde

Não há fonte

Que não beba da fronte de tal homem

Que

A erecção deste homem é redonda

E tem o peso da terra grávida

 

© Fontes:

  • COSTA, José Francisco, Poesia africana de língua portuguesa, disponível em: www.cronopios.com.br
  • FORTES, Corsino, Presentation at Bread Matters - Lisboa, Portugal, disponível em: www.breadmatters.org/BM/index, acessado em 12-01-2011

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por Mateus Monteiro às 16:08

Amílcar Cabral e a Poesia

Sexta-feira, 04.02.11

Em 1941, Amílcar, tem 17 anos e frequenta o liceu no Mindelo. Não se sente ainda com capacidade para auxiliar o pai na cruzada em favor de Cabo Verde. Mas já conhece todos os problemas que afectam a sua terra, porque o pai, desde cedo, o consciencializa.

Amílcar é, nessa altura, “Larbac”. Assim assina os poemas de amor que escreve: Quando Cupido acerta no alvo, Devaneios, Arte de Minerva, entre outros. Os temas denotam influências clássicas. Os inspiradores são os poetas que ele conhece do liceu: Gonçalves Crespo, Guerra Junqueiro, Casimiro de Abreu, por exemplo. O lirismo de Amílcar (Larbac - anagrama de Cabral) não se evidencia pela originalidade. Revela, porém, a sua sensibilidade amorosa. Esse romantismo passa para a sua prosa de adolescente, os contos, notas e comentários onde se vislumbra já um seguro conhecimento e um desejo de participação no universo insular em que vive. Um pouco mais tarde, em Lisboa, essas preocupações irão agudizar-se.

Todavia, na sua produção literária, destacam-se textos políticos, culturais e poesias. Colaborou em algumas revistas e publicações científicas.

Em 1946, publica na revista Seara Nova o poema "A minha poesia sou eu".

... Não, Poesia:
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai...
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo...

Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.

                                       Amílcar Cabral

 

 

O período entre 1945 e 1970 foi de produção de uma poesia de combate. É neste período que surgem os primeiros poetas guineenses: Vasco Cabral e António Baticã Ferreira; os cabo-verdianos: Ovídio Martins; Mário Fonseca; Onésimo Silveira; Yolanda Morazzo; Arménio Vieira e outros, Amílcar Cabral, com uma dupla ligação à Guiné e Cabo Verde, faz também parte desta geração de escritores nacionalistas. A literatura deste período caracteriza-se pelo surgimento da poesia de combate que denuncia a dominação, a miséria e o sofrimento, incitando à luta de libertação.

Embora os primeiros poemas de Amílcar Cabral revelem um autor cabo-verdiano, a maior parte da sua obra literária é dominada por um cunho universalista, marcada pela contestação e incitação à luta.

 

POEMA

 

Quem é que não se lembra

Daquele grito que parecia trovão?!

– É que ontem

Soltei meu frito de revolta.

Meu grito de revolta ecoou pelos vales mais longínquos da Terra,

Atravessou os mares e os oceanos,

Transpôs os Himalaias de todo o Mundo,

Não respeitou fronteiras

E fez vibrar meu peito...

 

Meu grito de revolta fez vibrar os peitos de todos os Homens,

Confraternizou todos os Homens

E transformou a Vida...

 

... Ah! O meu grito de revolta que percorreu o Mundo,

Que não transpôs o Mundo,

O Mundo que sou eu!

 

Ah! O meu grito de revolta que feneceu lá longe,

Muito longe,

Na minha garganta!

 

Na garganta de todos os Homens

                                      Amílcar Cabral

 

REGRESSO

 

Mamãe Velha, venha ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão.

É um bater de amigo

Que vibra dentro do meu coração

 

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,

Que há tanto tempo não batia assim...

Ouvi dizer que a Cidade-Velha

– a ilha toda –

Em poucos dias já virou jardim...

 

Dizem que o campo se cobriu de verde

Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança

Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.

– É a tempestade que virou bonança...

 

Venha comigo, Mamãe Velha, venha

Recobre a força e chegue-se ao portão

A chuva amiga já falou mantenha

E bate dentro do meu coração!

 

                                    Amílcar Cabral

 

ROSA NEGRA

 

Rosa,

Chamam-te Rosa, minha preta formosa

E na tua negrura

Teus dentes se mostram sorrindo.

 

Teu corpo baloiça, caminhas dançando,

Minha preta formosa, lasciva e ridente

Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças

Em teu corpo correndo a seiva da vida

Tuas carnes gritando

E teus lábios sorrindo...

 

Mas temo tua sorte na vida que vives,

Na vida que temos...

Amanhã terás filhos, minha preta formosa

E varizes nas pernas e dores no corpo;

Minha preta formosa já não serás Rosa,

Serás uma negra sem vida e sofrente

Ser’as uma negra

E eu temo a tua sorte!

 

Minha preta formosa não temo a tua sorte,

Que a vida que vives não tarda findar...

Minha preta formosa, amanhã terás filhos

Mas também amanhã...

... amanhã terás vida!

                           Amílcar Cabral

 

 


 ILHA

Tu vives - mãe adormecida -
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som das músicas sem música
das águas que nos prendem...

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
- os sonhos dos teus filhos -
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
- terra dura -
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

                                                      Amílcar Cabral

 

 

 

 

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por Mateus Monteiro às 21:45

ESCRITOR DO MÊS de JANERO

Quarta-feira, 02.02.11

O perfil de Amílcar Cabral

 

Adaptado a partir de “Discurso de Aristides Pereira”

Sessão de Abertura do Simpósio Internacional Amílcar Cabral

Cabo Verde, Janeiro de 1983

 

A apreensão da personalidade de Cabral exige o conhecimento dos antecedentes à plenitude da sua formação, marcados por condicionalismos do meio social e do tempo, subjacentes aos traços essenciais que definiram a sua vida. Entre esses traços ganha particular relevo, como pano de fundo de toda uma formação de revolucionário africano, a cabo-verdianidade assumida na sua globalidade nacional.

Nascido em Bafatá de família cabo-verdiana em que a cultura paterna, de componente académica, invulgar para a época, foi de influência dominante, e vivendo em Cabo Verde além dos anos modeladores da infância, os da adolescência e início da juventude, Cabral colheu no seu quotidiano o conjunto das manifestações espirituais e materiais que individualizam o comportamento do povo cabo-verdiano. A vivência, no final da infância, num meio rural e, na adolescência, numa cidade – a do Mindelo – particularmente sujeita aos reflexos dum dos períodos mais significativos da história da humanidade neste século, constitui um rico campo de experiências, para a compreensão do fenómeno da dominação colonial.

O interior de Santiago, onde decorreram os últimos anos da infância de Amílcar Cabral, pela carência das vias de penetração, era, na década de trinta, uma ilha dentro da própria ilha, em parte isolada da influência de valores estranhos, corrente em toda a raia do litoral. Repositório duma tradição própria, o meio ambiente da infância de Cabral moldou a criança de então, que interiorizou os elementos que a rodeavam e se constituíram em formas iniciais da sua identidade cultural.

Bafejado pela sorte ao ter acesso ao ensino, vedado a mais de noventa por cento dos seus concidadãos, a fim de ingressar no ensino secundário transferiu-se Amílcar Cabral para o Mindelo e, aí, para usar as suas próprias palavras, “encontrou-se em contacto mais amplo com o Mundo, onde se operava, dia-a-dia, a evolução da mentalidade humana, concretizando-se as aspirações do homem”. A vivência na cidade marítima, ao tempo, única janela aberta às vozes do mundo, foi de capital importância na formação do jovem estudante, invulgarmente dotado e laureado por classificações raramente atribuídas. Os últimos cinco anos da sua carreira liceal coincidiram com os da Segunda Guerra Mundial tão decisivos para a luta de libertação dos povos oprimidos.

O enraizamento no seu meio faz também emergir o sentimento de protesto contra as condições de opressão, de abandono e de discriminação a que o povo se encontrava votado. A uma estrutura social no domínio rural baseada, em Santiago, na grande propriedade – grande relativamente às dimensões desta ilha – e no rendimento, vítima das extorsões do proprietário, acrescia a degradação das terras pela erosão que se não combatia e o despovoamento dos campos, consequência de estiagens catastróficas que assolavam o arquipélago. O regime colonial não lutava contra tais males, antes deles tirando benefício, através da recuperação, por instituições coloniais de crédito das terras hipotecadas pelos proprietários autóctones.

Nesta conjuntura decorreu o dia-a-dia da infância de Cabral que pôde construir o quadro das fomes por tradição longínqua sempre renovada e na sua juventude foi testemunha directa da grande seca da década de quarenta que viria a dizimar cerca de 20 por cento da população do arquipélago.

Outra experiência da opressão viveu na cidade do Mindelo, então ocupada por alguns milhares de soldados da potência colonial, a pretexto de defesa de uma alegada neutralidade perante os países em guerra. O racismo no meio rural da ilha de Santiago não teria, ao tempo, manifestações exteriores de relevância; revelou-se no ambiente da ocupação militar, por um lado, produto das doutrinas de superioridade racial que na Europa de ideologia nazi-fascista ganhava alargada implantação e, por outro, componente indispensável, por justificadora, do próprio colonialismo.

O sentimento de protesto, nascido da inadequação dos valores culturais próprios às situações de opressão e discriminações atrás apontadas, conduziram à emergência da revolta que se afirmaria como traço distintivo da sua personalidade e factor de formação do revolucionário consequente em que se tornou.

Ainda na juventude, estes valores e este espírito traduziram-se em formas de expressão que vão de incursões no campo da literatura à intensa actividade de divulgação cultural! É uma produção literária, quer em verso, quer no domínio da ficção, a traduzir um engajamento com a realidade circundante, é a preocupação do estudante de agronomia a debruçar-se na área da sua especialidade, sobre o fenómeno da erosão, problema candente na luta pela sobrevivência do povo cabo-verdiano, é a animação cultural através de programas radiofónicos de forte penetração popular que, alertada, a autoridade colonial suspende.

Estudante universitário em Portugal, em estreita ligação com os seus contemporâneos, patriotas de Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe, Cabral enriquece a sua experiência de revolta plasmada no espaço insular. Aberto às correntes progressistas do pensamento que agitava o mundo e activo participante do movimento da “reafricanização dos espíritos”, alargaria a sua cabo-verdianidade à dimensão da identidade cultural africana. Mau grado o carácter embrionário das estruturas orgânicas de luta contra o colonialismo português, não só tinha surgido no seio da geração a que pertenceu Cabral uma forma de consciência unitária da ruptura com o modelo assimilacionista, mas também a noção do compromisso político e moral de enraizar, em cada território nacional, as ideias de emancipação dos povos oprimidos.

A Cabral caberia historicamente o papel de realizar esse compromisso no seu país natal.

Quem viveu, no despertar dos anos 50, a problemática da opressão na Guiné então dita portuguesa, pode hoje avaliar, com o recuo que o tempo permite, o alcance dos primeiros passos de Amílcar Cabral no terreno social da sua verdadeira prática política. Colónia de exploração comercial e enquadramento, arrastando ainda na sua estrutura económica as sequelas de uma feitoria, a Guiné respondia a todas as características de uma situação bloqueada.

Que perspectivas se poderiam abrir, com efeito, à esmagadora maioria da sociedade colonizada, se, barrando-lhe os horizontes, todos os mecanismos de poder convergiam para a desenfreada acumulação e pilhagem da riqueza fornecida pelos agricultores, a determinação racial e social, o obscurantismo cultural?

A Guiné não dispunha de nenhuma das classes que foram os motores de processos revolucionários noutras regiões do mundo, o proletariado ou mesmo uma classe camponesa privada de terra. Tão pouco se encontravam associadas as premissas de uma determinação subjectiva, apesar das efémeras tentativas de constituição de formações políticas com um cariz nacionalista.

Foi neste contexto que se inseriu a fase preliminar da acção de Amílcar Cabral. Os seus compatriotas não se tardariam muito a se aperceber, através do contacto directo que, enriquecido pela vivência em Portugal, o Engenheiro era portador de um projecto de libertação nacional voltado justamente para a apreensão da realidade objectiva e a criação, no seio de um grupo restrito de patriotas, da consciência da possibilidade de se tornarem os protagonistas do seu destino. Assim o viram embrenhar-se profundamente na compreensão das sociedades rurais onde realizava a sua tarefa de agrónomo, na auscultação das aspirações dos sectores dos assalariados e da pequena burguesia. Com Amílcar Cabral partilharam as hesitações de uns, a indiferença de outros, os erros e insuficiências de apreciação da proeminência a conceder à mobilização da alavanca social. Nesta acção alternada entre o campo e os centros urbanos se viria a situar a trama do empenhamento das forças sociais na luta libertadora.

Ao criarem a Partido Africano da Independência basearam a necessidade de união nos laços de carácter histórico, étnico e cultural, tecidos ao longo dos séculos entre as populações da Guiné e de Cabo Verde, nas contradições geradas pelo sistema colonial na operacionalidade de um instrumento binacional da libertação. Aqui se revelou o primeiro traço fundamental do perfil de Cabral, que iria orientar toda a sua trajectória política como congregados de homens e especialmente de duas comunidades oprimidas…

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